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A pintura antes da morte (Parte 1)

18 de jun.
15 min de leitura

Esta história se passa depois dos acontecimentos descritos nos contos: "O Covil de Nyxara" e "Cães Fantasmas da Ordo Umbrae", pela ordem.



Parte I

O Quarto dos Retratos


Toda casa aprende o idioma daquele que a governa.

A de Lúcia aprendera a falar por meio de fechaduras.

Havia a porta da cozinha, que precisava permanecer aberta quando Zack estava em casa. A porta do banheiro, que ele não permitia que fosse trancada. A porta do quarto de Lúcia, cuja chave desaparecera poucos dias depois da morte de Suzana.

E havia a outra.

No final do corredor do segundo andar, escondida entre a parede úmida e uma estante cheia de livros que ninguém lia, ficava a porta do quarto particular de Zack.

Era feita de madeira escura, grossa, quase negra, com uma maçaneta dourada que nunca perdia o brilho. Não importava quanta poeira se acumulasse pela casa, aquela maçaneta permanecia limpa.

Polida.

Esperando.

Somente duas pessoas podiam entrar ali.

Zack e Lúcia.

Uma delas porque era dona da chave.

A outra porque era obrigada.

Naquela noite, Lúcia estava sentada diante de um cavalete no centro do quarto. Seus dedos seguravam o pincel com a rigidez de quem empunhava uma arma apontada contra si mesma. A tinta escura escorria pelas cerdas e formava uma gota pesada na ponta.

Zack observava atrás dela.

Ele gostava de ficar assim, próximo o suficiente para que sua respiração tocasse os cabelos da enteada, mas distante o bastante para não aparecer refletido no pequeno espelho colocado ao lado das tintas.

Era uma de suas muitas superstições.

Assassinos também cultivavam pequenas covardias.

“Mais vermelho”, disse ele.

Lúcia não se moveu.

No quadro, uma jovem estava deitada sobre uma mesa comprida, cercada por flores brancas. Os olhos permaneciam abertos. A boca, pintada em um tom azul pálido, parecia tentar pronunciar uma última palavra.

Ao redor do pescoço, uma fita vermelha apertava a pele.

A moça do retrato chamava-se Camila.

Tinha vinte e três anos.

Gostava de cinema antigo, colecionava brincos em forma de estrela e ria antes de terminar as próprias frases.

Lúcia sabia disso porque Camila era sua amiga.

Ou acreditava ser.

“Eu disse mais vermelho.”

Zack pousou a mão no ombro dela.

Lúcia mergulhou o pincel na tinta.

Acrescentou uma faixa mais intensa ao redor do pescoço da jovem retratada. O vermelho se espalhou sobre a tela com uma vivacidade obscena.

“Assim?”

“Não.”

Os dedos dele apertaram o ombro de Lúcia.

“Você pinta como se ainda houvesse esperança.”

A pressão aumentou.

“Não há.”

Lúcia respirou devagar. Aprendera que qualquer movimento brusco podia ser interpretado como desafio. Zack encontrava insultos até na maneira como ela respirava. Para homens como ele, a existência alheia era sempre uma afronta.

Ela passou novamente o pincel sobre a tela.

A fita ganhou sombras.

A pele recebeu manchas.

Os olhos de Camila ficaram mais vazios.

Zack sorriu.

“Agora está parecida.”

Lúcia desejou quebrar o pincel e enterrá-lo na garganta dele.

Em vez disso, continuou pintando.

Era assim que sobrevivia.

Não com coragem.

Com adiamentos.

Adiar o golpe. Adiar o grito. Adiar o instante em que o medo se transformaria em alguma coisa maior e impossível de conter.

No quarto, havia nove quadros pendurados nas paredes.

Nove mulheres.

Nove mortes.

Cada tela ocupava exatamente o mesmo espaço, separada das demais por uma distância calculada. Zack media tudo antes de pendurá-las. Usava régua, nível e lápis. Dizia que uma coleção precisava de harmonia.

Na primeira pintura, uma mulher de cabelos ruivos aparecia caída dentro de uma banheira, os braços mergulhados em água escura.

Na segunda, uma jovem estava ajoelhada no centro de uma sala cercada por espelhos quebrados.

Na terceira, um corpo feminino repousava sob uma árvore, parcialmente coberto por folhas.

As outras mostravam quartos, porões, corredores e jardins.

Nenhuma pintura revelava o momento exato da violência.

Zack considerava isso vulgar.

Preferia retratar o segundo posterior, quando o corpo já havia deixado de lutar e o cenário se tornava silencioso.

“É o silêncio que transforma a morte em arte”, costumava dizer.

Lúcia sabia que aquilo não era arte.

Era vaidade com moldura.

Uma tentativa desesperada de um homem medíocre de convencer o mundo, ou apenas a si mesmo, de que havia algum significado em sua crueldade.

Zack inclinou-se para examinar o quadro de Camila.

“Falta alguma coisa.”

Lúcia sentiu o estômago se fechar.

Sempre faltava alguma coisa.

Era assim que ele prolongava o ritual.

“Flores”, disse ela.

“Quais?”

“Lírios.”

“Por quê?”

“Você colocou lírios sobre a mesa.”

Ele sorriu novamente.

“Eu sabia que você prestava atenção.”

Lúcia pintou os lírios.

Brancos, longos, quase luminosos contra o fundo escuro.

Quando terminou, Zack retirou o quadro do cavalete. Colocou-o sobre o chão e caminhou até a parede.

Havia um espaço vazio entre a oitava e a nona pintura.

O lugar de Camila.

Ele pendurou a tela com cuidado, recuou dois passos e contemplou a composição.

“Perfeita.”

Lúcia olhou para o rosto pintado da amiga.

Camila ainda estava viva.

Provavelmente dormia naquele instante, sem imaginar que a própria morte já havia sido ensaiada em tinta.

“Posso ir?”

Zack não respondeu.

Continuou observando o quadro.

Lúcia esperou.

Por fim, ele tirou uma pequena chave do bolso e abriu a porta.

“Você vai encontrá-la amanhã.”

Ela sentiu o sangue abandonar o rosto.

“Não.”

Zack a encarou.

O sorriso desapareceu.

“Não?”

“Ela não quer mais sair comigo.”

Era mentira.

Camila havia mandado três mensagens naquela tarde perguntando se Lúcia queria tomar café.

“Então faça com que queira.”

“Ela está desconfiada.”

“De mim?”

“De tudo.”

Zack aproximou-se.

Lúcia não recuou. Havia aprendido que recuar o estimulava.

“Você contou alguma coisa?”

“Não.”

“Olhe para mim.”

Ela ergueu os olhos.

Zack tinha um rosto comum. Essa era uma das coisas mais terríveis sobre ele.

Não havia deformidade, cicatriz ou sinal que denunciasse o que existia por baixo. Seus cabelos começavam a ficar grisalhos nas têmporas. Usava barba curta, camisas bem passadas e um perfume amadeirado que permanecia nos cômodos depois que saía.

Na rua, as pessoas confiavam nele.

Mulheres sorriam.

Homens apertavam sua mão.

Vizinhos diziam que ele havia sido um marido dedicado durante a doença de Suzana.

A humanidade adorava confundir aparência tranquila com inocência. Era mais cômodo. Reconhecer monstros verdadeiros exigiria admitir que eles dirigiam carros, pagavam impostos e desejavam boa tarde no elevador.

“Você contou alguma coisa para Camila?”, ele repetiu.

“Não.”

Zack tocou o rosto dela.

Os dedos deslizaram pela região arroxeada próxima ao maxilar, marca do último golpe.

“Você sabe o que acontece quando mente.”

Lúcia sabia.

“Não contei.”

Ele permaneceu alguns segundos examinando-a. Depois afastou a mão.

“Amanhã, às oito.”

“Ela não vai entrar aqui.”

“Vai.”

“Como você sabe?”

Zack abriu a porta e fez um gesto para que ela saísse.

“Porque todas entram.”

Lúcia atravessou o corredor sem olhar para trás.

Ouviu a porta fechar.

Depois, o som da chave girando.

Somente quando chegou ao próprio quarto permitiu que os joelhos cedessem.

Sentou-se no chão, encostada à cama, e segurou os braços ao redor do corpo.

Camila ainda estava viva.

Por algumas horas.

Talvez por um dia.

O tempo restante dependia da capacidade de Lúcia de mentir.

E Zack era muito melhor nisso.

 

 

Suzana morrera onze meses antes.

A polícia chamara de acidente.

Lúcia ainda chamava de pergunta.

Na madrugada em que aconteceu, ela acordara com o som de algo pesado caindo no andar de baixo. Encontrou a mãe ao pé da escada, deitada de lado, o pescoço inclinado em um ângulo que não parecia pertencer aos vivos.

Zack estava ajoelhado ao lado do corpo.

Não chorava.

Segurava o pulso de Suzana com dois dedos e observava o relógio na parede.

Quando percebeu Lúcia, mudou de expressão.

Foi uma transformação rápida, mas não rápida o bastante.

Primeiro, havia curiosidade.

Depois, desespero.

“Ela caiu”, disse.

Lúcia não respondeu.

Havia sangue no último degrau.

Uma pequena mancha escura.

Naquela noite, enquanto esperavam a ambulância, Zack repetiu a mesma frase diversas vezes.

Ela caiu.

Ela caiu.

Ela caiu.

Como se a verdade pudesse ser construída pela repetição.

Os médicos confirmaram que Suzana morrera devido à queda. A polícia fez perguntas. Zack respondeu a todas com a serenidade de um viúvo devastado. Falou sobre o hábito da esposa de caminhar pela casa durante a madrugada. Mencionou remédios para dormir. Entregou receitas, caixas e documentos.

Lúcia permaneceu em silêncio.

Três dias antes da morte, Suzana aparecera em seu quarto com um hematoma no pulso.

Disse que batera na porta do armário.

Lúcia fingiu acreditar.

Filhas também aprendem as mentiras de suas mães. Às vezes, herdá-las é a única forma de continuar vivendo na mesma casa.

Depois do enterro, Zack começou a entrar no quarto de Lúcia sem bater.

Não fazia nada no início.

Apenas ficava parado junto à porta, observando-a pintar.

Lúcia desenhava desde criança. Suzana dizia que ela conseguia enxergar cores escondidas dentro das pessoas. Retratos feitos por Lúcia jamais se limitavam aos rostos. Havia sempre alguma coisa atrás dos olhos, uma sombra, uma estação, um incêndio.

Zack descobriu seu talento tarde.

E transformou-o em ferramenta.

A primeira mulher chamava-se Renata.

Era colega de Lúcia em um curso livre de pintura. Tinha cabelos ruivos e falava sobre mudar-se para o litoral. Zack pediu que Lúcia a convidasse para jantar.

“Você precisa voltar a fazer amigos”, disse.

Naquela época, Lúcia ainda tentava acreditar que ele estava preocupado.

Renata foi à casa numa sexta-feira. Zack cozinhou, serviu vinho e contou histórias engraçadas sobre viagens que nunca fizera.

Renata riu.

Uma semana depois, Zack mandou Lúcia pintar a amiga dentro de uma banheira.

Ela recusou.

Naquela noite, ele bateu nela pela primeira vez.

Não foi um ataque descontrolado. Não houve fúria cega. Zack escolheu os golpes. Sabia onde acertar, quanto tempo esperar e quando parar.

Depois, lavou as mãos na pia.

“Agora pinte.”

Renata desapareceu quatro dias mais tarde.

Seu corpo foi encontrado em um motel abandonado, dentro de uma banheira cheia de água.

O quadro já estava pendurado na parede.

Lúcia compreendeu.

A partir daquele momento, cada amizade se tornou uma sentença.

 

 

Na manhã seguinte, Camila enviou uma mensagem às sete e quinze.

Hoje você não escapa. Café às quatro?

Lúcia permaneceu olhando para a tela do celular.

Poderia escrever a verdade.

Meu padrasto vai matar você.

Quatro segundos.

Era tudo de que precisava.

Quatro segundos para digitar uma frase capaz de salvar uma vida.

Mas Zack verificava seu telefone.

Havia instalado aplicativos, alterado senhas e sincronizado as mensagens em um aparelho que mantinha escondido. Lúcia não sabia onde.

Talvez estivesse observando naquele exato momento.

Apagou o que começara a escrever.

Respondeu:

Pode ser.

Camila enviou um coração.

Lúcia sentiu vontade de vomitar.

Encontraram-se em uma cafeteria próxima à faculdade. Camila chegou usando uma blusa verde e brincos prateados em forma de estrela.

Os mesmos que Lúcia havia pintado no quadro.

Zack descrevia todos os detalhes.

Roupa.

Penteado.

Joias.

Às vezes, Lúcia se perguntava se ele já havia escolhido a vítima antes mesmo de conhecê-la ou se apenas decidia sua aparência final depois de observá-la.

Camila sentou-se e retirou o cabelo do rosto.

“Você está péssima.”

“Obrigada.”

“Não foi um elogio.”

“Eu sei.”

Camila inclinou-se sobre a mesa.

“O que aconteceu no seu rosto?”

Lúcia tocou o hematoma junto ao maxilar.

“Bati na porta do armário.”

A mentira de Suzana saiu de sua boca.

Viva.

Herdada.

Camila não acreditou.

“Foi ele?”

Lúcia sentiu um frio atravessá-la.

“Ele quem?”

“Seu padrasto.”

Duas mesas adiante, um homem mexia no celular. Perto da janela, uma mulher lia um livro. O atendente limpava copos atrás do balcão.

Qualquer um poderia estar observando.

Qualquer aparelho poderia pertencer a Zack.

“Não fala isso.”

“Lúcia, eu vi como ele olha para você.”

“Como?”

“Como se você fosse uma coisa que pertence a ele.”

Lúcia apertou a xícara.

Camila tocou sua mão.

“Você pode ficar na minha casa.”

Durante um instante, a cafeteria desapareceu.

Não havia Zack.

Não havia quarto.

Não havia pinturas.

Existia apenas um apartamento pequeno, talvez desorganizado, com roupas sobre cadeiras e livros empilhados no chão. Um lugar onde as portas teriam fechaduras. Um lugar onde alguém perguntaria antes de entrar.

“Hoje”, continuou Camila. “Você pega suas coisas e vai comigo.”

Lúcia quase respondeu.

Então viu o carro estacionado do outro lado da rua.

Preto.

Vidros escuros.

O mesmo carro que Zack dirigia.

Ela retirou a mão.

“Você está exagerando.”

Camila pareceu ferida.

“Estou tentando ajudar.”

“Eu não pedi ajuda.”

As palavras saíram mais duras do que pretendia.

Talvez precisassem sair assim.

Era necessário ferir Camila para mantê-la distante.

“Você não entende a minha família”, disse Lúcia.

“Família não faz isso.”

“Isso o quê?”

Camila apontou discretamente para o hematoma.

Lúcia levantou-se.

“Preciso ir.”

“Lúcia.”

Ela pegou a bolsa.

Camila segurou seu pulso.

“Espera.”

O toque foi leve, mas o corpo de Lúcia reagiu como se tivesse sido agarrado.

Camila soltou-a imediatamente.

“Desculpa.”

Lúcia olhou novamente para o carro.

A porta do motorista estava aberta.

Ninguém dentro.

“Não me procura mais”, disse.

Saiu antes que a voz se quebrasse.

Do lado de fora, caminhou depressa, resistindo à vontade de correr.

Ao passar pelo carro, percebeu que estava vazio.

Não era o de Zack.

Mesmo assim, não voltou.

O medo não precisava estar certo para governar.

Precisava apenas ser possível.

 

 

Às oito da noite, a campainha tocou.

Lúcia estava sentada à mesa da cozinha.

Zack cortava uma maçã em fatias finas.

“Abra.”

Ela não se levantou.

Ele continuou cortando.

“Lúcia.”

A campainha tocou novamente.

“Quem é?”

Zack colocou uma fatia na boca.

“Você sabe.”

O coração dela começou a bater com tanta força que parecia tentar fugir sozinho.

“Ela não viria.”

“Abra a porta.”

Lúcia caminhou até a entrada.

Cada passo a aproximava de alguma coisa irreversível.

Ao abrir, encontrou Camila sob a luz amarelada da varanda.

Usava a blusa verde.

Os brincos de estrela.

Exatamente como no quadro.

“Você esqueceu isto.”

Camila ergueu um caderno.

Lúcia reconheceu o objeto. Não era seu.

“Eu não…”

Camila a interrompeu com um olhar.

Havia alguma coisa escrita na capa.

Duas palavras.

Peça ajuda.

Camila não viera por causa de um caderno.

Viera buscá-la.

Atrás de Lúcia, uma voz surgiu com suavidade:

“Camila.”

A jovem olhou para Zack.

Ele estava parado no corredor, sorrindo.

“Entre. Está começando a chover.”

Camila hesitou.

Lúcia tentou fechar a porta.

Zack apoiou a mão sobre a madeira.

“Não seja indelicada.”

“Eu só vim devolver…”

“Já que veio, aceite um café.”

“Não precisa.”

“Insisto.”

Camila olhou para Lúcia.

O pedido de socorro estava agora entre as duas, escrito sobre uma capa que ambas fingiam não compreender.

“Entre”, disse Lúcia.

A palavra saiu como uma condenação.

Camila atravessou a porta.

Zack fechou-a.

A chuva começou poucos minutos depois.

 

 

Ele serviu vinho.

Camila recusou no início, mas Zack tinha o dom de transformar recusas em constrangimento. Não levantava a voz. Não insistia de maneira evidente. Fazia a pessoa sentir que negar era uma grosseria.

Em menos de vinte minutos, Camila segurava uma taça.

Em quarenta, ria de uma história.

Em uma hora, olhava para Zack com aquela expressão que Lúcia já conhecia.

Não era desejo ainda.

Era curiosidade.

O primeiro degrau.

Zack sabia ouvir. Fazia perguntas, mantinha os olhos atentos e inclinava o corpo no momento exato. Dava às mulheres a impressão de que nada no mundo era mais importante do que aquilo que diziam.

Lúcia observava em silêncio.

A sedução não começava com beleza.

Começava com atenção.

E pessoas solitárias podiam confundir atenção com salvação.

Às dez, Zack levantou-se.

“Quero mostrar uma coisa.”

Camila sorriu.

“O quê?”

“Uma coleção.”

Lúcia derrubou o copo.

O vidro quebrou no chão.

Camila se assustou.

“Você se cortou?”

“Não.”

Zack fitou a enteada.

“Limpe.”

Enquanto Lúcia recolhia os cacos, ele conduziu Camila até a escada.

Ela deveria gritar.

Deveria correr.

Deveria agarrar Camila e dizer tudo.

Mas conhecia a força de Zack.

Conhecia as fechaduras.

Conhecia o pequeno revólver guardado na gaveta da cozinha.

Conhecia também a expressão dele quando alguma coisa escapava de seu controle.

Lúcia permaneceu ajoelhada entre os cacos enquanto os passos subiam.

Um.

Dois.

Três.

Depois, silêncio.

Ela levantou-se.

Seguiu-os.

Quando chegou ao corredor, a porta do quarto particular estava aberta.

A luz de dentro desenhava um retângulo pálido sobre o chão.

Camila permanecia parada no centro do cômodo.

Olhava para as pinturas.

Zack estava atrás dela.

A jovem demorou alguns segundos para compreender.

Primeiro viu a ruiva na banheira.

Depois, a mulher entre os espelhos.

Então reconheceu os rostos divulgados em reportagens, fotografias de desaparecidas, homenagens compartilhadas nas redes sociais.

Por fim, viu a si mesma.

A blusa verde.

Os brincos de estrela.

A mesa.

Os lírios.

A fita vermelha.

Camila virou-se lentamente para Lúcia.

Não havia acusação em seus olhos.

Havia compreensão.

Uma compreensão terrível, tardia e misericordiosa.

“Foi você quem pintou?”

Lúcia tentou responder.

Nenhuma palavra surgiu.

Zack fechou a porta.

O clique da fechadura foi pequeno.

Quase delicado.

Camila olhou para ele.

“Que porra é essa?”

Zack retirou o paletó.

Dobrou-o com cuidado e colocou sobre uma cadeira.

“A eternidade”, respondeu.

Camila correu para a porta.

Zack segurou-a pelos cabelos e a puxou para trás.

Lúcia avançou.

Ele a atingiu com o dorso da mão.

Ela caiu junto ao cavalete.

Camila gritou.

Zack lançou-a contra a mesa preparada no centro do quarto.

Os lírios brancos tremeram dentro dos vasos.

Lúcia ergueu o rosto.

O quadro estava diante dela.

A cena pintada esperava para ser cumprida.

“Não”, murmurou.

Zack retirou do bolso uma fita vermelha.

Camila começou a lutar.

Lúcia viu as unhas da amiga arranharem o rosto dele. Um risco apareceu em sua bochecha.

Pela primeira vez, Zack perdeu o sorriso.

Lúcia procurou alguma coisa ao redor.

Um objeto.

Uma lâmina.

Qualquer forma de interromper o que aconteceria.

Sua mão encontrou um tubo de tinta.

Depois, um pincel.

Nada capaz de feri-lo.

Sobre a pequena mesa estavam os frascos de solvente.

Lúcia agarrou um deles.

Zack percebeu.

“Não faça isso.”

Ela retirou a tampa.

O cheiro químico invadiu o quarto.

“Solte ela.”

Camila continuava lutando.

Zack apertou a fita em uma das mãos.

“Você sabe o que acontece se me desafiar.”

Lúcia olhou para as paredes.

Nove mulheres mortas a observavam.

Renata.

Júlia.

Marina.

Teresa.

Nomes transformados em tinta.

Amigas transformadas em decoração.

Por meses, Lúcia pensara que permanecia viva porque obedecia.

Naquele instante compreendeu a verdade.

Permanecia viva porque Zack precisava dela.

Sem seus quadros, ele seria apenas um homem matando mulheres.

Com eles, acreditava ser algo maior.

Lúcia ergueu o frasco sobre a pintura de Camila.

“Solte ela ou eu destruo.”

Zack parou.

Não por compaixão.

Não por medo da polícia.

Por causa do quadro.

Seus olhos desviaram para a tela.

Foi apenas um segundo.

Camila aproveitou.

Acertou-lhe o joelho e correu para a porta.

Lúcia lançou o solvente sobre o rosto de Zack.

Ele gritou.

Camila girou a chave.

Abriu a porta.

As duas atravessaram o corredor.

Desceram a escada tropeçando.

Lúcia sentia o coração explodir dentro do peito.

A saída estava a poucos metros.

Camila alcançou a maçaneta.

Puxou.

A porta não abriu.

Trancada.

Zack sempre trancava a casa por dentro.

Atrás delas, passos lentos começaram a descer a escada.

Lúcia procurou a chave sobre o móvel da entrada.

Nada.

Camila bateu contra a porta.

“Socorro!”

A chuva engolia sua voz.

Zack surgiu no alto da escada.

O rosto estava avermelhado pelo solvente. Um dos olhos permanecia fechado.

Na mão direita, segurava o revólver da cozinha.

“Lúcia”, disse.

Não havia raiva em sua voz.

Havia decepção.

Como se ela tivesse quebrado um objeto valioso.

Camila colocou-se diante da amiga.

“Fica longe dela.”

Zack desceu mais um degrau.

“Você não entende o que ela é.”

“Entendo melhor do que você.”

“Ela trouxe você até aqui.”

Camila olhou para Lúcia.

Foi um movimento involuntário.

Pequeno.

Mas Zack viu.

“Foi ela quem escolheu você”, continuou. “Ela fez amizade. Descobriu seus hábitos. Pintou sua morte.”

“Cala a boca”, disse Lúcia.

“Ela sabia.”

Camila respirava depressa.

Lúcia tocou seu braço.

“Eu tentei…”

“Não escute”, disse Camila.

Aquelas duas palavras quase partiram Lúcia ao meio.

Não escute.

Camila ainda acreditava nela.

Mesmo diante do quadro.

Mesmo diante das mentiras.

Zack ergueu a arma.

“Afaste-se dela.”

Camila não se moveu.

“Não.”

O disparo atravessou a casa.

Por alguns instantes, Lúcia não compreendeu.

Camila continuou de pé.

Depois olhou para o próprio peito.

Uma mancha escura começou a se espalhar pela blusa verde.

Não era assim no quadro.

O pensamento surgiu absurdo, brutal.

Não era assim que Camila deveria morrer.

Ela caiu nos braços de Lúcia.

O peso das duas as levou ao chão.

Zack permaneceu na escada, olhando para o corpo.

Não parecia perturbado pela morte.

Parecia irritado pela imperfeição.

“A pintura estava pronta”, murmurou.

Lúcia segurou Camila.

O sangue atravessou seus dedos.

Os brincos de estrela ainda balançavam.

A boca da jovem se moveu.

Nenhum som saiu.

Então seus olhos pararam.

A chuva continuava do lado de fora.

Zack desceu os últimos degraus.

Guardou a arma na cintura.

“Olhe o que você me obrigou a fazer.”

Lúcia ergueu o rosto.

Alguma coisa dentro dela havia se calado.

Não o medo.

Algo mais profundo.

A parte que ainda esperava sobreviver sem se transformar.

Zack observou o sangue espalhado pelo chão.

Depois olhou para o andar superior, na direção do quadro arruinado pelo solvente.

“Teremos que fazer outro.”

Lúcia não respondeu.

Ele se abaixou e segurou o rosto dela com uma das mãos.

“Está ouvindo?”

Ela fitou o homem que matara sua amiga.

Talvez tivesse matado sua mãe.

O homem que colecionava cadáveres porque não suportava a própria insignificância.

“Estou”, disse.

Zack soltou-a.

“Ajude-me com o corpo.”

Lúcia continuou abraçada a Camila.

Naquela madrugada, enquanto limpava o sangue e carregava o peso da amiga pelos fundos da casa, fez a primeira escolha que verdadeiramente lhe pertenceu desde a morte de Suzana.

Não fugiria.

Ainda não.

Fugir permitiria que Zack encontrasse outra pintora, outra cúmplice, outra casa.

Lúcia permaneceria.

Conheceria suas rotinas.

Descobriria onde guardava as chaves, os documentos e os objetos das vítimas.

Aprenderia tudo sobre ele.

E então pintaria seu último quadro.

 

 

Três semanas depois, Zack colocou uma fotografia sobre a mesa.

A mulher da imagem tinha cabelos negros, pele pálida e um olhar tranquilo.

“Ela se chama Beatriz”, disse.

Lúcia observou a fotografia.

“Quem é?”

“Sua nova amiga.”

“Eu não a conheço.”

“Vai conhecer.”

Zack colocou um novo cavalete no centro do quarto.

O quadro de Camila havia sido retirado da parede. No lugar, permanecia um retângulo mais claro, semelhante à marca deixada por um corpo depois que alguém o arrasta.

“Desta vez”, continuou ele, “não haverá erros.”

Lúcia preparou as tintas.

Zack descreveu a cena.

Uma cadeira.

Uma janela aberta.

Cortinas brancas.

A jovem sentada, com as mãos repousando sobre o colo.

Atrás dela, uma figura segurando uma lâmina.

Lúcia começou a pintar.

Seguiu cada instrução.

A cadeira.

A janela.

As cortinas.

Beatriz.

As mãos.

A lâmina.

Quando Zack saiu para atender ao telefone, Lúcia continuou trabalhando.

Acrescentou algo que ele não havia pedido.

No canto mais escuro do quadro, quase escondida entre as cortinas, pintou uma porta entreaberta.

E atrás dela, uma sombra feminina observava a cena.

Lúcia não sabia por que fizera aquilo.

Talvez fosse apenas cansaço.

Talvez fosse o rosto da culpa tomando forma.

Ou talvez certas pinturas soubessem mais do que seus pintores.

Quando Zack voltou, não percebeu a sombra.

Ainda não.

Mas, naquela noite, depois que a casa adormeceu, três batidas soaram do lado de dentro do quarto dos retratos.

Lentas.

Fundas.

Como se alguma coisa, aprisionada entre a tinta e a tela, tivesse finalmente encontrado uma porta.

 


 (Continua...)



Os preparativos para o Halloween deste ano já começaram!

A Bruxa Nyxara está chamando você!



 
 
 

2 comentários

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H. Francisconi
19 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Acabo de ler "A pintura antes da morte", Parte I de "O Quarto dos Retratos", com atenção e "devagar" - como pediu Luna Bela Morte na apresentação do conto.

Um suspense brilhante (ou "sombrio", como prefere a autora!) É de prender o fôlego para não perdê-lo; um caminhar ao lado de cada personagem, muito bem caracterizado e pleno de horror, uma viagem fantasmagórica no terreno cruel de uma realidade que persiste e uma expectativa flagrante no leitor enquanto aguarda o próximo capítulo.

Deixo aqui a minha sugestão a todos os interessados na boa literatura gótica.

Francis Wolf (pseudônimo de H. Francisconi).

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Luna Bela Morte
19 de jun.
Respondendo a

Francis Wolf, recebo suas palavras com profunda gratidão. Você leu como eu pedi: devagar, com atenção, permitindo que o horror respirasse entre uma frase e outra, coisa rara nestes tempos em que até o medo querem consumir com pressa.

Fico feliz que "A pintura antes da morte" tenha prendido seu fôlego e conduzido seus passos ao lado dessas criaturas feridas, assombradas e perigosamente humanas. Essa realidade cruel que persiste é justamente o fantasma mais difícil de exorcizar.

Obrigada pela leitura generosa e pela recomendação. Hoje à noite será publicada a Parte II. A tela ainda não terminou de sangrar. 🖤

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