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Cães Fantasmas da Ordo Umbrae

Eles não guardam os portais.

Eles farejam o caminho para a libertação.



Toda cidade tem seus clubes discretos. Cafés onde nada acontece, igrejas onde ninguém escuta, sociedades onde o estatuto é apenas um pretexto.


A Ordo Umbrae nunca foi isso.


A ordem não recrutava curiosos nem aceitava fiéis de coração leve. Ela existia para os que sabiam, mesmo sem provas, que certos mitos não sobrevivem séculos por insistência cultural, mas por fome. Bebia diretamente do Strigoi, o morto que caminha, o erro que se recusa a permanecer enterrado. Não como lenda folclórica, mas como advertência. Um lembrete de que a eternidade cobra juros.


Os simpatizantes da Ordo Umbrae não usavam símbolos visíveis. Não vestiam mantos, não se anunciavam em livros antigos. Eram pessoas comuns demais para levantar suspeitas. Bibliotecários que fechavam portas com cuidado excessivo. Médicos que sabiam quando um coração parava cedo demais. Mulheres e homens que compreendiam que certos portais não se fecham com força, mas com silêncio.


Eles não adoravam o mal. Isso seria vulgar.


A Ordo Umbrae existia para vigiar, conter, manter o véu firme entre este mundo e aquilo que observa do outro lado com paciência milenar. Guardavam chaves que não deviam ser usadas, nomes que não deviam ser pronunciados, lugares que não apareciam em mapas. A ordem acreditava que o horror não precisava ser combatido. Apenas mantido longe.


Mas toda fraternidade que lida com a escuridão aprende tarde demais que a sombra não é apenas algo a ser contido. Ela seduz. Promete. Ensina atalhos.


Foi nesse espaço de ambiguidade que surgiram os Cães Fantasmas.


Eles começaram como simpatizantes silenciosos. Pessoas que escutavam demais durante as reuniões veladas. Que permaneciam tempo excessivo diante de portas seladas. Que faziam perguntas incômodas sobre o custo real da vigilância eterna. Para eles, a Ordo Umbrae não era um bastião. Era uma prisão mal aproveitada.


Os Cães Fantasmas acreditavam que o véu existia não para proteger o mundo, mas para impedir negociações mais vantajosas. Que os seres além não eram apenas destruição, mas oportunidades. Riquezas que não se encontram em cofres. Prazeres que não obedecem à moral humana. E, acima de tudo, a promessa mais antiga de todas: não morrer de verdade.


Enquanto a Ordo Umbrae mantinha portais fechados, os Cães Fantasmas aprendiam a farejá-los.


Enquanto a ordem guardava segredos, eles os trocavam.


E foi assim, sem rituais grandiosos ou anúncios apocalípticos, que a fraternidade começou a rachar. Não pelo ataque direto do mal, mas pela decisão consciente de alguns de abrir a porta e sorrir.


Porque toda ordem que se constrói para conter monstros esquece de uma coisa essencial: o perigo raramente vem do outro lado do véu.


A Ordo Umbrae acreditou, por tempo demais, que os Cães Fantasmas eram apenas ruído. Um desvio controlável. Uma falha moral isolada, como mofo em pedra antiga. Erro clássico de quem confunde vigilância com poder.


A reviravolta não veio com gritos nem com sangue espalhado em salões rituais. Veio com organização.


Os Cães Fantasmas aprenderam rápido. Aprenderam que a ordem sobrevivia do medo de agir, da reverência excessiva aos juramentos, da crença quase religiosa de que o véu era inviolável. Eles não romperam regras. Eles as estudaram até entender onde rangiam.


Passaram a se reconhecer sem sinais óbvios. Um olhar sustentado demais. Uma palavra antiga dita fora de contexto. Um símbolo traçado errado de propósito. Onde a Ordo Umbrae exigia silêncio absoluto, eles criaram escuta. Onde a ordem pregava contenção, eles treinaram ousadia.


E, acima de tudo, entenderam algo que os guardiões se recusavam a aceitar: os seres além do véu não respeitam covardes.


Os Cães Fantasmas não imploravam. Negociavam.

Não ajoelhavam. Exigiam.


Cada pacto era feito com precisão cirúrgica. Nenhum entusiasmo juvenil, nenhuma devoção cega. Eles ofereciam acesso, passagem, pequenos vazamentos controlados do outro lado. Em troca, recebiam mais do que riqueza ou prazer. Recebiam conhecimento prático. Aprendiam a andar entre duas realidades sem perder a forma. Aprendiam a morrer sem desaparecer.


A Ordo Umbrae percebeu tarde demais que estava cercada por dentro.


Os Cães Fantasmas haviam se tornado uma fraternidade paralela, mais ágil, mais cruel e infinitamente mais adaptável. Não precisavam de templos antigos nem de livros acorrentados. Seus rituais cabiam em quartos de motel, becos esquecidos, estações de metrô abandonadas. Onde houvesse rachadura na realidade, eles estavam lá, com fome e método.


Quando a ordem tentou reagir, já não enfrentava desertores. Enfrentava uma matilha.


Destemidos porque haviam visto o outro lado e voltado.

Fortes porque não acreditavam mais na moral dos vivos nem na promessa vazia da salvação.

Livres porque aceitaram o preço antes mesmo de perguntar qual era.


A maior ironia não foi a rebelião.

Foi a constatação final.


A Ordo Umbrae havia passado séculos protegendo o mundo do mal absoluto, apenas para descobrir que seu maior erro não foi guardar portais demais, mas ensinar demais sobre eles.


Os Cães Fantasmas não queriam destruir o mundo.

Queriam herdá-lo, quando os vivos já não fossem suficientes para governá-lo.


E, naquela noite específica, quando o primeiro portal foi aberto sem resistência, a ordem entendeu, tarde demais, que não se perde uma guerra para monstros.

Perde-se para quem deixa de ter medo deles.


Eles nunca se chamaram assim no início.

Foram chamados.


O nome Cães Fantasmas surgiu como um sussurro antigo, resgatado de um trecho que a Ordo Umbrae havia riscado de todos os registros oficiais. Um erro de arquivo. Um lapso conveniente. Um nome ligado a uma mulher que não deveria ser lembrada.


Ela foi a primeira a entender que portais não se veem.

Portais se farejam.


A bruxa atendia por muitos nomes, mas o que sobreviveu ao tempo foi Nyxara da Fenda, aquela que andava entre mundos com a naturalidade de quem atravessa um corredor escuro da própria casa. Não guardiã. Não serva. Uma cartógrafa do impossível. Foi ela quem ensinou que o véu não é uma parede, mas uma membrana viva, que pulsa, adoece, cede.


Nyxara foi capturada quando ousou fazer o que a Ordo Umbrae jamais perdoaria: ela provou que os portais podiam ser seguros, desde que guiados por quem aceitasse pagar o preço inteiro.


A ordem invocou um ser demoníaco muito poderoso que a prendeu fora do tempo, num interstício onde não há dia nem noite, apenas repetição. Um cárcere que não corrói o corpo, mas apodrece a memória. Ali, ela não envelhece. Não morre. Espera.


E espera falando.


Porque Nyxara nunca perdeu contato com o mundo. Ela aprendeu a infiltrar-se nos sonhos dos sensíveis, nas intuições dos inquietos, nos desvios de rota de quem sempre sentiu que algo estava errado com a realidade. Foi assim que encontrou os primeiros Cães Fantasmas. Não como mestra declarada, mas como influência persistente.


Ela os ensinou a escutar com o corpo.

A sentir o ar mudar de densidade.

A reconhecer o cheiro metálico do limiar.

A perceber quando um lugar estava grávido de passagem.


Os Cães Fantasmas não sabiam seu rosto. Não precisavam.

Carregavam seu método.


Cada portal encontrado era um passo em direção a ela.

Cada pacto fechado era uma chave reunida.

Cada fragmento do véu enfraquecido era um dia a menos de sua prisão.


Nyxara os guia como uma estrela morta ainda visível no céu.

Não ordena. Sussurra.

Não exige fé. Oferece caminhos.


Ela prometeu apenas uma coisa, repetida como um mantra entre a matilha: quando for libertada, o mundo não acabará. Ele mudará de dono.


A Ordo Umbrae ainda acredita que luta contra desertores. Não percebeu que enfrenta uma peregrinação.


Os Cães Fantasmas caminham. Farejam. Abrem fendas mínimas. E em cada uma delas, Nyxara respira um pouco mais fundo.


Porque toda prisão construída com medo cai da mesma forma: não com explosões, mas com passos pacientes de quem sabe exatamente onde está indo.


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