O corpo que a sombra vestiu

ARQUIVO 17-B — ORDO UMBRAE
Classificação: Sepulcro Negro
Relator: Adriano Varela
Documento recuperado entre seus pertences após o incidente da Catedral do Sangue.
Se este relatório estiver sendo lido fora dos aposentos da Ordem, alguém fracassou.
Talvez eu.
Talvez todos nós.
Os fatos aqui registrados começaram três noites depois do chamado “Caso dos Retratos”, quando Zack, assassino de mulheres, foi encontrado morto em circunstâncias que a polícia preferiu chamar de envenenamento. A casa estava limpa. O quarto onde ele morreu, lacrado. As vítimas, enfim, haviam recebido seus nomes de volta.
Nyxara também recebera alguma coisa.
Liberdade.
REGISTRO I — A MULHER DA CAVERNA
A primeira imagem foi capturada às 5h47 por uma câmera de segurança próxima às cavernas do litoral.
Uma figura feminina saiu da escuridão usando um vestido negro. Tinha cabelos longos e molhados. Caminhava descalça, mas não deixava pegadas na estrada úmida.
Quando olhou para a câmera, seus olhos eram inteiramente negros.
A emissora transmitiu a gravação durante dezessete segundos. No décimo oitavo, o sinal caiu em toda a cidade.
Examinei o vídeo quadro a quadro.
A mulher possuía forma, mas não matéria. Não projetava sombra. Não deslocava a chuva. A câmera térmica registrava apenas uma mancha com a temperatura do ar.
Nyxara estava livre, porém continuava morta.
E os mortos, quando invejam a carne, tornam-se pacientes.
REGISTRO II — DEPOIMENTO DE HELENA VALENÇA
Dois dias depois, Helena Valença procurou a polícia.
Tinha vinte e nove anos, trabalhava como fotógrafa e era conhecida pela beleza incomum: pele pálida, olhos verdes, boca cheia e cabelos negros que lhe desciam até a cintura. Havia nela uma sensualidade sem esforço, dessas que parecem menos um convite do que uma ameaça.
Helena declarou que uma mulher aparecia em seus autorretratos.
Não durante as fotografias.
Somente depois.
A polícia arquivou a denúncia como crise nervosa. Eu consegui recuperar o áudio:
— No primeiro retrato, ela estava atrás da cortina. No segundo, junto à cama. No terceiro, respirava perto do meu pescoço.
O agente perguntou se Helena fazia uso de medicamentos.
Ela riu.
— Ontem sonhei com ela. Perguntou o que eu daria para nunca mais sentir medo.
— E o que você respondeu?
Houve oito segundos de silêncio.
— Tudo.
Helena desapareceu naquela mesma noite.
REGISTRO III — OS AUTORRETRATOS
Entrei em seu apartamento às 23h16.
Encontrei treze fotografias penduradas no quarto.
Na primeira, Helena estava sozinha.
Na segunda, uma sombra surgia atrás dela.
A cada nova imagem, Nyxara se aproximava. Seus braços tornavam-se mais definidos. O rosto ganhava contornos. A boca adquiria dentes.
Na décima segunda fotografia, a bruxa abraçava Helena por trás. Seus dedos penetravam o peito da mulher como raízes entrando em terra molhada.
A última imagem mostrava apenas Helena.
Mas os olhos já não eram verdes.
Sobre a cama havia uma câmera ainda ligada. No visor, uma frase pulsava:
ELA ME DEU O MEDO. EU LHE DEI O RESTO.
Compreendi o mecanismo.
Uma fotografia aprisiona luz, enquanto um retrato aprisiona uma presença. Quando Lúcia transformou a pintura de Zack numa sentença e abriu passagem para Nyxara, ensinou a bruxa a atravessar imagens.
Helena, ao fotografar a própria transformação, construíra a ponte por onde seria invadida.
Não com sangue.
Com consentimento pronunciado durante um sonho.
Há entidades, como a Nyxara, que transformam passagens em saídas tranquilas, sem precisar rasgar um portal ou arrombar uma porta.
REGISTRO IV — HOTEL SANTA BRÍGIDA
Localizei Helena no quarto 313 do Hotel Santa Brígida.
A porta estava aberta.
Três espelhos haviam sido colocados ao redor de uma banheira cheia de água negra. Velas ardiam no chão. O ar cheirava a rosas apodrecidas e pele recém-lavada.
Helena saiu lentamente da banheira.
Estava nua, exceto por um tecido negro e translúcido colado ao corpo. Os cabelos escorriam sobre os seios e quadris como tinta viva. Cada gesto possuía uma elegância obscena; não a vulgaridade de quem deseja ser observada, mas a soberania de quem sabe que todos olharão.
Seu coração batia.
Ela respirava.
Desta vez, projetava uma sombra.
— Helena? — perguntei.
A mulher sorriu.
— Esse era o nome da casa.
Retirei o crucifixo e recitei as palavras de expulsão.
Ela continuou se aproximando.
— Exorcismos expulsam invasores, Adriano. Eu fui convidada.
— Onde está Helena?
Nyxara apontou para os espelhos.
Nos três, o reflexo não repetia seus movimentos.
A verdadeira Helena batia contra o vidro. Gritava sem som. Seus olhos verdes suplicavam enquanto as mãos deixavam marcas do lado de dentro.
— Devolva o corpo, bruxa maldita!
— E você acha isso justo? – disse ela – O mundo passou vinte e nove anos ensinando essa mulher a odiá-lo. Eu apenas aceitei o que ela desejava abandonar.
— Não... você mentiu para ela! – Eu disse, tentando me afastar daquela presença ameaçadora que se aproximava lentamente.
A bruxa inclinou levemente o rosto, e me encarou num olhar ameaçador.
— Mentir? Não... Toda promessa de libertação omite alguma sepultura. Você, com todas as suas aventuras, já deveria saber disso. Eu conheço você, Adriano!
Ergui minha bengala de ferro.
Nyxara segurou minha mão.
O frio atravessou minha pele, subiu pelos meus ossos e apertou meu coração. Durante um segundo, vi uma catedral. Mulheres envoltas em véus. Um livro de pele acorrentado a um altar.
Vi meu próprio cadáver.
— Ainda não — sussurrou ela. — Suas mãos frias estão esperando. A partir de agora você está amaldiçoado por mim!
Quando recuperei os sentidos, o quarto estava vazio.
Os espelhos haviam rachado.
Dentro de cada fragmento, Helena continuava gritando.
REGISTRO V — PROVAS MATERIAIS
Os exames recolhidos antes de seu desaparecimento confirmam:
As impressões digitais pertencem a Helena Valença.
O DNA pertence a Helena Valença.
O sangue é humano.
Contudo, a gravação de sua voz apresenta duas frequências sobrepostas. A primeira corresponde a Helena. A segunda pronuncia palavras num dialeto anterior à fundação desta cidade.
Não houve morte clínica.
Não houve decomposição.
Não houve substituição do corpo.
O caso não deve ser classificado como possessão.
Foi uma anexação.
Nyxara não roubou apenas a carne de Helena. A bruxa ocupou sua beleza, sua voz, seus desejos, seus documentos e sua existência social. Pode atravessar portas, ser fotografada, tocar pessoas, sangrar... talvez até amar, se criaturas assim possuírem alguma perversão equivalente.
Desde aquela noite, quatro homens desapareceram após serem vistos na companhia de uma mulher de longos cabelos negros.
As testemunhas descrevem o mesmo perfume de rosas mortas.
Nenhum corpo foi encontrado.
Encerro este relatório com uma advertência:
Nyxara entrou no mundo pela ferida de uma mulher, mas não permanecerá escondida dentro dela. Porque é mais do que ter um corpo para viver. Na verdade, o que Nyxara realmente deseja é corpo para ser acreditada.
E agora, quando a bruxa sorrir, ninguém verá um fantasma.
Verão apenas uma bela mulher.
Será esse o seu disfarce mais terrível.
Nota: este dossiê foi situado depois de “A pintura antes da morte” e antes dos acontecimentos de “A Noite das Mãos Frias”.
Nota 2: Este conto é uma criação original da autora Luna Bela Morte e pertence ao universo paralelo da saga Ordo Umbrae, revelando segredos que se ocultam nas margens da história principal. Saiba mais em:




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