top of page

A pintura antes da morte (Parte Final)

Parte Final

A porta que aprendeu a respirar

 

O ruído voltou.

Lento.

Interrompido.

Alguma coisa pesada arrastava-se pelo andar de baixo.

Lúcia permaneceu diante da tela coberta, a mão ainda próxima do pano negro.

Nyxara havia ordenado que não o retirasse.

Ainda não.

As outras pinturas começaram a vibrar suavemente contra a parede. Não como antes, quando pareciam pedir passagem, mas numa cadência quase cerimonial.

Uma convocação.

Ou uma contagem regressiva.

Do corredor, Lúcia ouviu um gemido.

Não era a casa.

Era Zack.

Ela saiu do quarto particular e desceu a escada.

Encontrou-o no corredor da cozinha.

Ainda estava vivo.

Seu corpo jazia de bruços, torto sobre o piso, mas uma das mãos continuava avançando. Os dedos dobravam-se devagar, arranhando a madeira e puxando alguns centímetros de carne atrás de si.

Depois paravam.

Tremiam.

Recomeçavam.

Zack tentava alcançar a porta da frente.

O esforço era grotesco e inútil.

As pernas já não obedeciam. Um dos braços permanecia imóvel ao lado do corpo. O outro fazia todo o trabalho, arrastando-o numa peregrinação miserável até uma saída que parecia mais distante a cada movimento.

Uma substância transparente escorria de sua boca.

Não era espuma.

Era uma gosma sem cor, espessa, que se estendia do lábio até o chão e se rompia em fios sempre que ele tentava erguer a cabeça.

Seus olhos encontraram Lúcia.

Ainda havia consciência neles.

Pouca.

Mas suficiente.

O corpo estava morrendo.

A mente, porém, permanecia aprisionada dentro dele, assistindo.

Zack tentou falar.

A língua já não respondia.

Produziu apenas um som abafado, úmido, semelhante ao gemido de um animal esmagado sob uma porta.

Lúcia ficou parada.

Não sentiu pena.

Também não sentiu prazer.

Havia apenas uma espécie de assombro severo diante do fato de que aquele homem, que ocupara tanto espaço em sua vida, agora parecia tão pequeno.

Durante anos, Zack fora uma presença maior que a casa.

Maior que a polícia.

Maior que a verdade.

Maior até que Deus, quando decidia quem viveria, quem morreria e quem seria obrigado a pintar.

Agora não conseguia erguer o próprio rosto do chão.

Lúcia aproximou-se.

Ele moveu os dedos na direção do tornozelo dela.

Talvez pedisse ajuda.

Talvez ainda tentasse agarrá-la.

Mesmo morrendo, homens como Zack não distinguiam súplica de posse.

Lúcia recuou o pé.

“Não.”

Ele soltou outro som.

“Você ainda não terminou.”

Zack piscou lentamente.

Lúcia olhou para a escada.

Depois para ele.

A tela aguardava.

Ela se abaixou, passou os braços por baixo dos ombros de Zack e tentou levantá-lo.

O corpo dele era pesado.

Peso morto, embora ainda respirasse.

Lúcia puxou.

A cabeça dele caiu para trás, a boca aberta, a gosma transparente descendo pelo queixo.

Ela o arrastou pelo corredor.

As pernas batiam contra o chão.

Cada degrau parecia impossível.

Lúcia amarrou um lençol ao redor do tronco dele e utilizou o tecido para puxá-lo escada acima. Seus braços queimavam. Os ferimentos da noite anterior latejavam. As costas ameaçavam ceder.

Ainda assim, não parou.

Zack a arrastara por aquele mesmo caminho.

Agora ela o conduzia.

Havia uma simetria cruel naquele esforço.

Não justiça.

A justiça já chegara tarde demais para Suzana, Camila, Beatriz e todas as outras.

Era apenas inversão.

O corpo que antes impunha o trajeto agora era incapaz de escolhê-lo.

Quando alcançou o segundo andar, Lúcia caiu de joelhos.

Ficou alguns segundos respirando com dificuldade.

Zack permaneceu deitado ao lado dela.

Seu peito ainda se movia.

Pouco.

Irregularmente.

“Não morre agora”, disse Lúcia.

A voz saiu quase carinhosa.

Ela riu.

Um som curto e quebrado.

“Não. Agora não.”

Segurou o lençol outra vez.

“Você esperou tanto por este quadro.”

Arrastou-o até o quarto particular.

Quando o corpo de Zack atravessou a porta, todas as pinturas pararam de se mover.

O silêncio caiu de uma vez.

A sala reconhecera seu colecionador.

Lúcia o encostou contra a parede oposta à tela coberta. Precisou improvisar apoios para mantê-lo sentado.

Colocou uma pequena cômoda de um lado.

Uma estante baixa do outro.

Empilhou duas caixas sob um de seus braços e encaixou uma poltrona pesada junto às pernas, impedindo que o corpo tombasse.

Zack ficou ali, sentado contra a parede, mantido de pé pelos próprios móveis.

Como uma peça mal colocada em sua coleção.

A cabeça pendia para o lado.

Lúcia segurou seus cabelos e a reposicionou, apoiando-a contra a madeira.

“Olha para mim.”

Os olhos dele se moveram.

Entreabertos.

O rosto voltou-se na direção dela.

Era suficiente.

Lúcia arrastou uma mesa para o centro do quarto.

Colocou-a entre os dois.

Depois trouxe uma cadeira.

Posicionou-a diante de Zack, de costas para o quadro coberto.

Sentou-se.

Por alguns segundos, apenas o observou.

A respiração dele produzia um chiado baixo.

A gosma continuava escorrendo da boca.

Os dedos da mão direita tremiam de tempos em tempos.

Atrás de Lúcia, o pano negro ocultava a pintura.

O quarto estava iluminado apenas pelas primeiras luzes da manhã e por uma vela que ela acendeu sobre a mesa.

A chama pequena projetava sombras sobre os rostos das mulheres penduradas nas paredes.

O tribunal estava completo.

As testemunhas também.

Lúcia apoiou as mãos sobre a mesa.

“Então.”

A palavra saiu tranquila.

Quase casual.

“Chegamos.”

Zack tentou mover os lábios.

Nenhum som compreensível surgiu.

“Não precisa falar.”

Lúcia inclinou-se para a frente.

“Você já falou demais.”

Um sorriso trêmulo surgiu em seu rosto.

“Anos demais.”

Ela olhou ao redor.

“Você falava quando mandava.”

A voz começou a ganhar firmeza.

“Falava quando descrevia como elas deveriam morrer. Falava quando dizia que uma sombra precisava ser mais escura, que um pescoço precisava de mais vermelho, que os olhos ainda tinham esperança demais.”

Lúcia apontou para as pinturas.

“Você falava como um deus.”

Riu novamente.

Desta vez mais alto.

“Um deus de quarto trancado.”

A risada morreu depressa.

“Que espécie miserável de divindade precisa esconder a própria criação atrás de uma porta?”

Os olhos de Zack moveram-se.

Lúcia bateu levemente a ponta dos dedos sobre a mesa.

“Você gostava disso, não gostava?”

Silêncio.

“Não da morte.”

Ela inclinou a cabeça.

“Não exatamente.”

A voz tornou-se analítica, quase fria.

“Você gostava do intervalo.”

Zack continuava olhando para ela.

“O instante em que elas ainda estavam vivas, mas você já conhecia o fim.”

Lúcia ergueu um dedo.

“Era isso.”

O sorriso voltou.

“Você queria saber algo que elas não sabiam. Queria carregar o segredo enquanto elas riam, bebiam, acreditavam em você.”

Sua voz subiu.

“Queria olhar para uma mulher viva e pensar: eu conheço a sua morte.”

Ela bateu a mão aberta sobre a mesa.

“Isso fazia você se sentir grande?”

O corpo de Zack estremeceu.

“Responda, Zack.”

Ela esperou.

Depois soltou uma gargalhada curta e aguda.

“Perdão.”

Levou a mão à boca, teatralmente.

“Esqueci que a sua língua já não trabalha para você.”

A expressão de Lúcia mudou.

O humor desapareceu.

“Agora entende?”

Falou baixo.

“Agora você entende o que é ter alguma coisa presa dentro da boca e não conseguir fazê-la sair?”

Zack tentou respirar mais fundo.

O peito falhou.

“Quantas vezes eu quis gritar?”

A voz dela vacilou.

“Quantas vezes minha mãe quis?”

A chama da vela inclinou-se.

“Quantas vezes aquelas mulheres perceberam tarde demais que você não era o homem que fingia ser?”

Lúcia olhou para o quadro de Camila.

“Você se apresentava como atenção.”

Olhou para o de Renata.

“Como consolo.”

Para o espaço que pertencera a Beatriz.

“Como amor.”

Seus olhos voltaram a Zack.

“Mas nunca foi amor.”

Lúcia se levantou um pouco da cadeira, apoiando as mãos sobre a mesa.

“Amor não reduz o outro a cenário.”

Sentou-se novamente.

“Amor não transforma confiança em ferramenta.”

Sua voz tornou-se mais grave.

“Você não seduzia mulheres porque as desejava.”

Pausa.

“Você as seduzia porque precisava provar que qualquer porta poderia ser aberta para você.”

Lúcia apontou para ele.

“Era isso que movia você.”

Zack piscou lentamente.

“A posse.”

A palavra saiu como uma sentença.

“Não o prazer.”

Lúcia balançou a cabeça.

“Prazer era apenas o perfume que você passava sobre a podridão.”

Sua voz subiu novamente.

“Você queria possuir o instante em que alguém deixava de pertencer a si mesma.”

O quarto parecia encolher ao redor deles.

“Por isso as pinturas.”

Lúcia abriu os braços.

“Não bastava matar.”

Uma risada aguda atravessou sua garganta.

“Não.”

Bateu os dedos no próprio peito.

“Você precisava que eu testemunhasse.”

A risada cresceu.

“Precisava de uma artista.”

Ela pronunciou a palavra com desprezo.

“Porque sem mim você era o quê?”

A voz caiu para um sussurro.

“Um homem comum.”

Zack tentou mover a cabeça.

Não conseguiu.

“Um homem comum com uma lâmina.”

Lúcia inclinou-se sobre a mesa.

“Isso é o que mais doía, não é?”

Os olhos dela brilhavam.

“Saber que, sem moldura, sem ritual, sem quarto secreto, você era apenas mais um covarde assassinando mulheres que confiaram nele.”

A risada voltou.

Desta vez longa.

Desesperada.

Começou baixa e tornou-se aguda, quase infantil, antes de quebrar-se num soluço.

Lúcia levou as duas mãos aos cabelos.

“E eu pintei!”

Gritou.

“Eu pintei tudo!”

As lágrimas surgiram.

“Cada detalhe.”

Ela apontou para as próprias mãos.

“Com estas mãos.”

A voz desceu para um murmúrio.

“Você transformou meu talento numa autópsia antecipada.”

Lúcia observou os dedos manchados de tinta.

“Minha mãe dizia que eu enxergava cores escondidas nas pessoas.”

Sorriu com tristeza.

“Você me obrigou a enxergar apenas o vermelho.”

O silêncio pesou.

Zack tentou fechar os olhos.

“Não.”

Lúcia ergueu-se bruscamente.

“Não fecha.”

A voz tornou-se aguda.

“Você nunca deixou que elas fechassem.”

Deu a volta na mesa e aproximou-se dele.

Segurou seu rosto.

“Olha.”

As pálpebras dele tremiam.

Lúcia o soltou e voltou à cadeira.

“Eu tentei encontrar uma explicação para você.”

Respirou profundamente.

“Durante muito tempo.”

Falava agora como quem organizava pensamentos diante de um cadáver acadêmico.

“Pensei que talvez sua mãe tivesse sido cruel.”

Um sorriso amargo.

“Porque sempre há uma mãe para culpar quando um homem decide apodrecer.”

Ela riu.

“É quase uma tradição científica.”

A risada cessou.

“Pensei que talvez você tivesse sido humilhado. Abandonado. Ferido.”

Lúcia inclinou o rosto.

“Talvez alguma mulher não tivesse amado você da maneira exata que seu ego exigia.”

Ergueu as sobrancelhas.

“Que tragédia.”

A voz adquiriu uma doçura venenosa.

“Uma mulher disse não, e o universo inteiro precisou pagar.”

Ela fechou as mãos.

“Depois pensei em poder.”

“No modo como homens aprendem cedo que o corpo feminino é território negociável.”

“No modo como vizinhos escutam gritos e chamam aquilo de problema de casal.”

“No modo como policiais veem hematomas e procuram primeiro a mentira da mulher, não a mão do homem.”

“No modo como mães ensinam filhas a diminuir a voz para sobreviver.”

Lúcia olhou para a parede.

“Talvez você não tenha criado a violência.”

Voltou-se para ele.

“Talvez apenas tenha encontrado um mundo já preparado para protegê-la.”

A vela estalou.

“Você percebeu as rachaduras.”

“Percebeu que ninguém perguntava.”

“Que ninguém queria saber.”

“Que uma mulher desaparecida vira notícia por alguns dias e depois é substituída por outra.”

A voz cresceu.

“Você fez da indiferença uma cúmplice.”

Lúcia bateu uma das mãos na mesa.

“Mas isso explica você?”

Outra batida.

“Explica?”

A terceira veio mais forte.

“Não.”

Ela ficou em silêncio.

Depois falou muito baixo:

“Explicar não é absolver.”

Zack soltou um gemido.

Lúcia inclinou-se para ouvi-lo.

A boca dele tentou formar uma palavra.

“De…”

Ela observou.

“Demônio?”

Os olhos de Zack se abriram um pouco mais.

Lúcia recuou lentamente.

Seu rosto mudou.

Primeiro espanto.

Depois incredulidade.

Por fim, uma alegria doente, afiada.

“Possuído…”

A palavra saiu num sussurro.

Ela se levantou.

“Pelo demônio.”

Seus olhos arregalaram-se.

A voz tornou-se aguda.

“PELO DEMÔNIO, ZACK!?”

Lúcia golpeou a mesa com as duas mãos.

O impacto fez a vela saltar.

A madeira estremeceu.

Em seguida, ela soltou uma gargalhada alta.

Descontrolada.

A risada atravessou o quarto, bateu nas paredes e voltou multiplicada pelos retratos.

Lúcia jogou a cabeça para trás.

Riu até perder o ar.

Até as lágrimas escorrerem.

Até a garganta doer.

Quando conseguiu falar outra vez, sua voz estava rouca.

“O demônio.”

Ela limpou os olhos.

“Você quer colocar a sua culpa no demônio.”

Mais uma risada breve.

“Que conveniente.”

Lúcia caminhou lentamente ao redor da mesa.

“Homens fazem isso há séculos.”

A voz voltou ao tom normal.

“Quando o desejo é deles, chamam de natureza.”

Subiu ligeiramente.

“Quando a crueldade é deles, chamam de fraqueza.”

Mais aguda:

“Quando o crime é deles, chamam de tentação.”

Parou diante de Zack.

“E quando o sangue finalmente responde…”

Inclinou-se sobre ele.

“Chamam pelo demônio.”

Lúcia tocou o peito dele com um dedo.

“Não havia ninguém aí dentro além de você.”

Um toque mais forte.

“Você.”

Outro.

“Você.”

A voz cresceu:

“VOCÊ.”

Ela recuou.

“Não foi uma entidade que escolheu as vítimas.”

“Não foi uma sombra que me obrigou a pintar.”

“Não foi o inferno que levou Beatriz ao hotel.”

Lúcia mostrou os dentes num sorriso feroz.

“Foi você.”

Zack respirou com dificuldade.

“E sabe o que é mais engraçado?”

Ela esperou.

“A primeira criatura verdadeiramente sobrenatural que entrou nesta casa não veio para possuir você.”

A sombra de Nyxara surgiu discretamente no canto da parede.

“Veio porque escutou o nosso sangue.”

Lúcia não olhou diretamente para ela.

“Talvez esse seja o seu maior castigo.”

Sua voz se tornou calma.

“Descobrir que o demônio não estava ao seu lado.”

Os olhos de Zack moveram-se para a sombra.

Talvez a visse.

Talvez apenas sentisse.

Lúcia caminhou até a lateral da tela coberta.

Não tocou no pano ainda.

“Você sabe o que lhe espera, Zack?”

Ele tentou mover a boca.

“Você sabe o que eu preparei para você?”

Lúcia colocou uma das mãos sobre o tecido negro.

A sala pareceu escurecer.

“Eu pensei muito enquanto pintava.”

Sua voz estava quase serena.

“Pensei na polícia.”

“Nos jornais.”

“Nos tribunais.”

“Pensei no que diriam de mim.”

Apertou o pano.

“A enteada desequilibrada.”

“A jovem traumatizada.”

“A cúmplice.”

“A assassina.”

Lúcia riu sem humor.

“Talvez façam um retrato meu.”

Seus olhos percorreram as mulheres na parede.

“Talvez tentem me reduzir a uma frase, como fizeram com todas vocês.”

A voz amoleceu por um instante.

“Vão perguntar por que eu não fugi.”

“Por que obedeci.”

“Por que convidei mulheres para esta casa.”

“Por que carreguei corpos.”

“Perguntarão tudo, menos quanto medo cabe dentro de uma pessoa antes que ela deixe de parecer humana.”

Lúcia olhou para Zack.

“Vão me condenar.”

Respirou profundamente.

“Talvez tenham razão.”

Sua mão permaneceu sobre o pano.

“Eu matei você.”

Não havia hesitação.

“Preparei a jarra.”

“Esperei sua sede.”

“Vi você beber.”

Ela ergueu o queixo.

“E não me arrependo.”

Os olhos de Zack pareceram dilatar-se.

“É o que eu desejo.”

A voz de Lúcia começou a crescer.

“Vão me condenar por isso, mas é o que eu desejo…”

Ela puxou levemente o tecido, sem revelá-lo.

“Não desejo que você seja lembrado.”

Outro pequeno movimento.

“Não desejo que seu nome vire lenda.”

Mais um.

“Não desejo que estudiosos procurem profundidade onde só havia fome de controle.”

A voz tornou-se mais intensa.

“Não desejo que digam que você era brilhante.”

Aguda:

“Complexo.”

Mais aguda:

“Incompreendido.”

Lúcia arrancou o primeiro canto do pano da parede.

Uma luz vermelha pareceu escapar por baixo do tecido.

“Eu desejo que você…”

Ela fechou os olhos por um segundo.

Todos os anos de medo atravessaram seu rosto.

Suzana no chão.

Camila nos braços.

Beatriz sob o lençol.

O quarto.

A cama.

As roupas rasgadas.

Os pincéis.

Quando abriu os olhos, já não havia medo neles.

Lúcia puxou o pano.

A tela foi revelada.

“QUEIME NO INFERNO!”

Sua voz explodiu pelo quarto.

No quadro, Zack aparecia mergulhado num abismo de fogo.

O corpo estava preso por correntes negras, suspenso acima de um rio incandescente. As chamas subiam por suas pernas, devoravam sua pele e renasciam sempre que a carne se desfazia.

Ao redor dele, demônios de formas diferentes puxavam as correntes.

Um tinha mãos longas como ganchos.

Outro trazia o rosto coberto por bocas.

Uma criatura de asas queimadas segurava a cabeça de Zack para que ele fosse obrigado a contemplar as mulheres pintadas nas margens do inferno.

Nenhuma delas sofria.

Observavam.

Renata.

Camila.

Beatriz.

Suzana.

E muitas outras.

Não como vítimas.

Como testemunhas da sentença.

Lúcia recuou até tocar a parede onde o quadro estava pendurado.

Encostou as costas contra a tela.

Ergueu o rosto na direção da pintura.

“QUEIME NO INFERNO!!”

O segundo grito foi mais forte.

Os músculos de seu pescoço se contraíram.

As mãos fecharam-se em punhos.

A sombra de Nyxara cresceu atrás dela, envolvendo a moldura como um véu de cabelos negros.

Zack tremia contra a parede.

Seus olhos permaneciam fixos no quadro.

Lúcia sentiu toda a dor acumulada subir pela garganta.

Não era apenas raiva.

Era o choro que interrompera.

Os pedidos de socorro que nunca fizera.

As palavras que engolira para continuar viva.

A culpa por cada amiga.

O rosto de sua mãe.

Tudo encontrou saída.

Lúcia gritou pela terceira vez.

Mais alto.

Mais longo.

Mais feroz.

“QUEIME NO INFERNO!!!”

A voz rasgou sua garganta.

Seu rosto ficou vermelho.

As veias apareceram no pescoço.

Ela pressionou as costas contra o quadro, o rosto virado para cima, enquanto o grito atravessava a casa inteira.

As janelas estremeceram.

As portas bateram.

As pinturas das mulheres inclinaram-se para a frente.

A chama da vela cresceu numa coluna vermelha.

No quadro, o fogo pareceu mover-se.

Não por ilusão.

As chamas pintadas ondularam.

Os demônios ergueram as cabeças.

Uma das criaturas virou o rosto na direção de Zack.

Ele viu.

Seu corpo produziu um último espasmo.

A gosma transparente escorreu em maior quantidade de sua boca.

Os olhos abriram-se completamente.

O terror dentro deles já não pertencia ao quarto.

Ele contemplava outra coisa.

Algo atrás da pintura.

Ou dentro dela.

Lúcia deixou o grito morrer.

O silêncio que veio depois era absoluto.

Zack tentou respirar.

O peito ergueu-se uma última vez.

Desceu.

Não voltou a se mover.

Sua cabeça tombou para o lado.

A boca permaneceu aberta.

Os olhos perderam o foco.

Zack estava morto.

Lúcia permaneceu encostada ao quadro.

O corpo inteiro tremia.

Não de medo.

De esvaziamento.

Como uma casa depois de uma tempestade, ainda de pé, mas incapaz de reconhecer o próprio silêncio.

Ela deslizou lentamente até o chão.

As lágrimas vieram.

Sem cerimônia.

Sem beleza.

Lúcia chorou diante das mulheres pintadas.

Chorou por Suzana.

Por Camila.

Por Beatriz.

Por si mesma.

A sombra de Nyxara permaneceu atrás dela.

Não a abraçou.

Não ofereceu consolo.

Apenas testemunhou.

Depois de alguns minutos, Lúcia olhou para Zack.

Nenhuma respiração.

Nenhum pulso.

Nenhum movimento.

Então percebeu algo.

As pálpebras dele tremiam.

Lúcia parou de chorar.

Observou.

Outro movimento rápido.

Depois outro.

Como os olhos de alguém mergulhado num sono profundo.

Como uma pessoa sonhando.

Ou presa num pesadelo.

“Nyxara…”

A sombra na parede não respondeu.

No quadro, a figura de Zack ainda ardia.

Um dos demônios cravou as mãos em seu rosto pintado e o obrigou a olhar para o rio de fogo.

As pálpebras do cadáver moveram-se mais depressa.

Lúcia levantou-se lentamente.

Aproximou-se dele.

“Ele está morto.”

A voz de Nyxara finalmente surgiu:

“O corpo está.”

Lúcia olhou para a pintura.

“E o resto?”

As chamas pintadas subiram.

A boca de Zack, dentro do quadro, abriu-se num grito que não produziu som no quarto.

Nyxara respondeu:

“Você pediu que ele queimasse.”

Os olhos do cadáver continuaram movendo-se sob as pálpebras.

“Agora ele está sonhando com aquilo que você pintou.”

Lúcia sentiu um frio atravessar-lhe a pele.

“Por quanto tempo?”

A sombra da bruxa inclinou a cabeça.

“Alguns quadros secam em horas.”

As figuras demoníacas fecharam-se ao redor de Zack.

“Outros levam uma eternidade.”

 

 

As pálpebras de Zack continuavam se movendo.

Rápidas.

Desesperadas.

Sob a pele quase cinzenta, os olhos percorriam um mundo que ninguém mais naquele quarto poderia ver.

No quadro, sua figura ardia.

Os demônios puxavam as correntes, rasgavam a carne pintada e a devolviam inteira ao fogo, para que o tormento pudesse recomeçar. As chamas não consumiam. Renovavam.

Lúcia observou o cadáver.

O peito não se erguia.

A boca permanecia aberta, ainda marcada pela gosma transparente que lhe escorrera pelos lábios. O corpo já não guardava calor suficiente para ser chamado de vivo.

Mesmo assim, ele sonhava.

Ou algo sonhava dentro dele.

A sombra de Nyxara cresceu sobre a parede.

Primeiro alongou os cabelos negros.

Depois abriu os braços.

Sua forma atravessou as pinturas de Renata, Camila, Beatriz e das outras mulheres, unindo todas as molduras numa única mancha escura.

Então Nyxara gargalhou.

Não foi uma risada humana.

Não possuía alegria, humor ou qualquer vestígio daquilo que os vivos chamavam de prazer.

Era um som antigo.

Profundo.

Uma gargalhada que parecia subir das fundações da casa, atravessar o assoalho e fazer vibrar os ossos ocultos dentro das paredes.

As velas se apagaram.

Os vidros das molduras estremeceram.

A porta bateu sozinha.

Lúcia levou as mãos aos ouvidos, mas o riso já estava dentro dela.

Passava por suas lembranças.

Pelo corredor onde a mãe caíra.

Pela cama onde Zack transformara seu corpo em cárcere.

Pelas covas abertas.

Pelos rostos pintados.

Por tudo aquilo que fora silenciado para que a casa continuasse parecendo uma casa.

Nyxara riu até as sombras do quarto parecerem curvar-se.

Até mesmo os demônios do quadro interromperam o tormento por um instante e ergueram os rostos em reverência.

Quando o som cessou, o silêncio pareceu menor.

Frágil.

Como se pudesse quebrar ao menor sussurro.

Lúcia permaneceu diante da pintura.

“Ele está no inferno?”

A voz de Nyxara surgiu atrás de todas as paredes:

“Os homens inventaram muitos nomes para aquilo que acontece quando uma consciência é obrigada a contemplar eternamente o que fez.”

Lúcia olhou para as pálpebras inquietas.

“Isso é um sim?”

“É o bastante.”

“Ele pode voltar?”

A sombra inclinou a cabeça.

“Para onde?”

Lúcia não respondeu.

Nyxara continuou:

“O corpo dele morreu.”

“E a mente?”

“Você a pintou em outro lugar.”

Um arrepio percorreu os braços de Lúcia.

“Eu não sabia que podia fazer isso.”

“Você ainda não sabe muitas coisas sobre aquilo que suas mãos alcançam.”

A frase não soou como elogio.

Soou como aviso.

Lúcia olhou ao redor.

Os quadros permaneciam nas paredes. Mulheres mortas retratadas no instante posterior à violência, condenadas a repetir o próprio fim para satisfazer a vaidade de um assassino.

Ela caminhou até a pintura de Camila.

Tocou a moldura.

“Quero destruir tudo.”

“Não.”

A ordem veio seca.

Lúcia retirou a mão.

“Por quê?”

“Porque destruir uma imagem não desfaz aquilo que ela testemunhou.”

“Esses quadros eram dele.”

“Não mais.”

Lúcia encarou Nyxara, ou a região de sombra onde imaginava estar seu rosto.

“O que devo fazer com eles?”

“Feche a porta.”

“E depois?”

“Viva o bastante para decidir.”

A resposta irritou Lúcia.

“Você sempre fala como se tudo fosse um enigma.”

“Respostas fáceis criaram homens como Zack.”

A sombra começou a recuar.

“Ele nunca suportou que algo existisse sem oferecer-lhe compreensão, acesso ou posse.”

Nyxara desapareceu de uma das paredes e surgiu em outra.

“Não repita a fome dele.”

Lúcia olhou novamente para o corpo.

“Não sou como ele.”

“Todos dizem isso diante do primeiro cadáver.”

A frase atravessou o quarto com a frieza de uma lâmina.

Lúcia cerrou os punhos.

“Você me ajudou a matá-lo.”

“Mostrei uma porta.”

“Sabia que eu entraria.”

“Sabia que desejava entrar.”

A sombra de Nyxara aproximou-se do quadro do inferno.

“Não tente me transformar na autora das escolhas que finalmente fez sozinha.”

Lúcia baixou o olhar.

Havia verdade naquilo.

E verdades raramente chegavam com gentileza.

Ela caminhou até Zack.

Abaixou-se e fechou suas pálpebras.

Por alguns segundos, elas permaneceram imóveis.

Depois começaram a tremer novamente sob seus dedos.

Lúcia retirou a mão.

“Adeus.”

Não havia amor na palavra.

Nem perdão.

Era apenas uma fronteira.

Levantou-se e cobriu novamente a pintura com o pano negro.

Assim que a imagem desapareceu, o corpo de Zack sofreu um espasmo.

As pernas bateram contra os móveis.

A cabeça tombou para a frente.

Um ruído seco saiu de sua garganta, embora seus pulmões já não respirassem.

Lúcia congelou.

A voz de Nyxara veio baixa:

“Não volte a descobrir o quadro.”

“Por quê?”

“Porque algumas sentenças precisam permanecer sem testemunhas.”

“Mas ele…”

“Ele continuará vendo.”

Lúcia olhou para o pano.

Sob o tecido, uma luz vermelha pulsava discretamente.

Como o brilho de um incêndio visto através de uma janela distante.

Ela recolheu os pincéis.

Fechou os frascos de tinta.

Guardou as telas vazias.

Não limpou o sangue.

Não retirou os móveis que sustentavam Zack.

Não desmontou o tribunal.

Deixou tudo como estava.

As mulheres nas paredes.

O assassino diante delas.

O quadro coberto.

A sentença oculta.

Antes de sair, voltou-se uma última vez.

“Camila.”

O retrato não se moveu.

“Renata.”

Silêncio.

“Beatriz.”

A moldura estalou.

Lúcia fechou os olhos.

“Eu sinto muito.”

Uma corrente de ar atravessou o quarto.

As pinturas inclinaram-se levemente para a frente.

Não como acusação.

Como despedida.

Lúcia saiu.

Fechou a porta.

A chave de Zack ainda estava do lado de dentro de seu bolso. Ela a retirou, encaixou-a na fechadura e girou.

Uma vez.

Duas.

Três.

O mecanismo respondeu com um som metálico.

Definitivo.

Lúcia segurou a maçaneta.

“Este quarto nunca mais será aberto.”

Atrás da porta, alguma coisa arranhou a madeira.

Ela não se moveu.

O ruído continuou.

Lento.

Três riscos descendo pela superfície interna.

Lúcia soltou a maçaneta.

Pegou um prego grande e um martelo no armário do corredor. Pregou uma tábua sobre a porta. Depois outra.

Cada golpe ecoou pela casa.

Não estava apenas fechando um cômodo.

Estava sepultando um regime.

Quando terminou, a porta havia desaparecido sob a madeira.

Restava apenas uma parede improvisada.

Um túmulo vertical.

Lúcia colocou a chave no chão.

Observou-a por alguns segundos.

Depois a esmagou com o martelo até que o metal se deformasse.

Não haveria herdeiros daquele quarto.

Não haveria colecionadores.

Não haveria curiosos atravessando a porta para procurar beleza naquilo que fora construído com sofrimento.

Certos lugares não merecem virar museus.

Merecem ser esquecidos até que a própria casa se recuse a lembrar.

 

 

Lúcia desceu.

O dia já havia começado.

A luz da manhã entrava pelas janelas, revelando a poeira suspensa no ar. O corredor parecia diferente sem os passos de Zack.

Maior.

Não porque tivesse mudado de tamanho.

Mas porque já não pertencia a ele.

A cozinha continuava desorganizada.

A jarra de limonada permanecia sobre a mesa.

Quase vazia.

Um pouco de líquido amarelo repousava no fundo, luminoso sob o sol.

Lúcia pegou a jarra.

Abriu a torneira.

Deixou a água correr até que não restasse cor alguma.

Lavou o recipiente.

Depois lavou o copo.

O chão.

A mesa.

As mãos.

Esfregou os dedos com força, mas a tinta continuava sob as unhas.

Preto.

Vermelho.

Nunca sairia completamente.

Talvez não devesse.

Algumas manchas não existiam para ser removidas.

Existiam para impedir que esquecêssemos de onde conseguimos escapar.

Lúcia entrou na sala.

A televisão estava ligada.

Provavelmente Zack a deixara assim antes de adormecer na poltrona.

O noticiário da manhã começava.

A apresentadora sorria diante de imagens ensolaradas da cidade, como se o mundo não contivesse quartos trancados, covas rasas e mulheres aprendendo a reconhecer o som dos passos de seus algozes.

Lúcia sentou-se no sofá.

O corpo inteiro começou a pesar.

A força que a mantivera desperta durante a noite desaparecia rapidamente. Cada músculo cobrava a própria dívida.

Ela apoiou a cabeça numa almofada.

Na televisão, a apresentadora falava sobre trânsito.

Depois sobre o tempo.

Chuva prevista para o litoral.

Risco de ressaca próximo às montanhas.

Lúcia fechou os olhos por alguns segundos.

A voz da repórter tornou-se distante.

“Autoridades investigam novas informações relacionadas ao desaparecimento de várias jovens na região…”

Lúcia abriu os olhos.

Na tela, surgiram fotografias.

Renata.

Camila.

Beatriz.

Outras mulheres.

Os mesmos rostos das paredes.

O volume estava baixo, mas Lúcia conseguiu ouvir.

“Durante a madrugada, a polícia recebeu mensagens anônimas indicando possíveis locais onde os corpos teriam sido ocultados.”

Lúcia sentou-se.

Não havia enviado mensagem alguma.

A reportagem continuou:

“Equipes foram deslocadas para terrenos abandonados próximos à estrada litorânea. Segundo informações preliminares, restos mortais teriam sido encontrados em pelo menos três pontos diferentes.”

Imagens de viaturas.

Fitas de isolamento.

Policiais caminhando entre árvores.

Uma escavadeira.

Familiares chorando.

Lúcia levou a mão à boca.

As três pedras.

Beatriz.

“Quem enviou?”, murmurou.

A televisão não respondeu.

Mas a luz da sala oscilou.

Uma voz masculina assumiu a reportagem:

“As mensagens também continham um nome. Um homem conhecido apenas como Zack, apontado como principal suspeito de uma série de mortes.”

Uma fotografia surgiu na tela.

Zack sorria.

Vestia terno.

Parecia respeitável.

O retrato perfeito de um homem que atravessara o mundo sem que ninguém perguntasse o que carregava atrás dos olhos.

Lúcia observou a imagem.

O nome finalmente estava fora da casa.

Já não pertencia ao segredo.

A apresentadora prosseguiu:

“A polícia ainda tenta determinar a origem das mensagens. Todas foram enviadas de aparelhos pertencentes às próprias vítimas, alguns desligados havia meses ou jamais recuperados.”

Lúcia sentiu o ar esfriar.

Na parede da sala, sua sombra alongou-se.

Os cabelos pareciam maiores.

“Nyxara”, sussurrou.

A sombra não respondeu.

O noticiário mudou de assunto.

Ou tentou.

A apresentadora levou a mão ao ouvido, escutando alguma coisa transmitida pela produção.

Seu sorriso desapareceu.

“Recebemos agora imagens registradas durante a madrugada numa área próxima às cavernas do litoral.”

Lúcia permaneceu imóvel.

A tela exibiu uma gravação de segurança.

Imagem granulada.

Horário no canto inferior.

Cinco horas e quarenta e sete minutos.

A câmera estava posicionada num estacionamento próximo à enseada. Ao fundo, as montanhas formavam uma massa negra contra o céu clareando.

Durante alguns segundos, nada aconteceu.

Depois uma figura surgiu.

Uma mulher.

Caminhava descalça pela estrada.

Usava um vestido negro que se movia sem vento. Os cabelos longos, molhados, cobriam-lhe parte do rosto.

“Moradores afirmam que a mulher teria saído de uma das cavernas interditadas”, explicou a repórter. “Equipes enviadas ao local não encontraram sinais de invasão ou passagem humana.”

Lúcia levantou-se lentamente.

Na gravação, a mulher parou.

Virou o rosto diretamente para a câmera.

Os cabelos afastaram-se.

Os olhos eram completamente negros.

Dois poços sem luz.

Nyxara sorriu.

A imagem falhou.

Por um único quadro, rápido demais para que um espectador comum percebesse, a tela exibiu a pintura do inferno.

Zack em chamas.

Demônios ao redor.

Depois voltou à estrada vazia.

A apresentadora tentou continuar, mas o áudio tornou-se incompreensível.

Lúcia aproximou-se da televisão.

“Você saiu.”

A voz de Nyxara surgiu atrás dela:

“Você abriu.”

Lúcia virou-se.

Não havia ninguém na sala.

Somente a própria sombra projetada sobre a parede.

Mas agora ela não repetia seus movimentos.

Lúcia permaneceu imóvel.

A sombra ergueu uma das mãos.

“Eu não sabia.”

“Portas não exigem compreensão.”

“Você me usou.”

A sombra inclinou a cabeça.

“E você me encontrou porque precisava ser usada?”

Lúcia sentiu raiva.

“Eu precisava de ajuda.”

“Recebeu.”

“Qual foi o preço?”

O silêncio durou alguns segundos.

Então a sombra respondeu:

“Ainda está sendo calculado.”

Lúcia fechou os olhos.

Estava cansada demais para ter medo.

Cansada demais para lutar contra bruxas, fantasmas, sistemas ou futuros.

“Vá embora.”

A sombra permaneceu.

Lúcia abriu os olhos.

“Eu mandei você ir embora.”

Nyxara riu baixo.

Não a gargalhada infernal do quarto.

Uma risada quase humana.

Quase afetuosa.

“Você aprendeu a dar ordens.”

“Aprendi.”

“Então durma, Lúcia.”

A sombra começou a desaparecer.

“Quando acordar, o mundo saberá quem Zack era.”

“E quem eu sou?”

Nyxara já era apenas uma mancha fraca na parede.

“Isso ainda será pintado.”

A presença sumiu.

Lúcia desligou a televisão.

A tela escureceu.

Por um momento, seu reflexo apareceu no vidro: rosto ferido, cabelos desarrumados, olhos fundos.

Atrás dela, ninguém.

Lúcia voltou ao sofá.

Deitou-se.

Puxou uma manta sobre o corpo.

Pela primeira vez em anos, não escutou passos no andar de cima.

Não havia chave girando.

Não havia voz ordenando.

Não havia um homem decidindo quando ela poderia respirar.

O silêncio da casa já não era cúmplice.

Era dela.

Lúcia fechou os olhos.

A televisão tornou a ligar sozinha.

O noticiário continuava, embora o aparelho permanecesse sem som.

Na tela, familiares recebiam a notícia de que os corpos haviam sido encontrados.

Nomes eram devolvidos às mulheres.

Histórias emergiam das covas.

Zack deixava de ser mistério e começava a apodrecer sob a luz pública.

Lúcia adormeceu.

O sono veio pesado, profundo, sem sonhos.

Ou talvez houvesse apenas um.

Suzana estava sentada junto ao mar, segurando a velha vara de pesca. Ao ver a filha aproximar-se, sorriu.

Não disse que tudo estava perdoado.

Não disse que a dor terminara.

Apenas abriu espaço ao seu lado.

Lúcia sentou-se.

As duas observaram a água.

No mar aberto, os peixes nadavam livres.

No canto sujo entre as pedras, a água começava a se mover.

Primeiro lentamente.

Depois com força.

A maré subiu e atravessou os paredões, carregando garrafas, redes, óleo e restos acumulados durante anos.

A sujeira foi arrastada para fora.

Não desapareceu.

Nada desaparece tão facilmente.

Mas deixou de ficar presa.

No mundo desperto, Lúcia dormia diante do noticiário da manhã.

A luz do sol alcançou seu rosto.

Na televisão, a transmissão voltou à imagem da caverna.

A entrada estava vazia.

Sobre uma das pedras, porém, havia uma rosa negra.

Suas pétalas se abriram diante da câmera.

Uma a uma.

No quarto trancado, atrás das tábuas e da fechadura destruída, as pálpebras de Zack continuavam tremendo.

O pano sobre a pintura começou a queimar pelas bordas.

Não produziu fumaça.

Não consumiu a parede.

Apenas revelou, pouco a pouco, o inferno que existia atrás dele.

Dentro do quadro, Zack gritou.

Desta vez, o som atravessou a tela.

Percorreu o quarto.

Bateu contra a porta selada.

Desceu pela madeira da casa.

Chegou à sala como um sussurro distante.

Lúcia não acordou.

Nenhuma mulher acordou.

Nenhuma porta se abriu.

Do outro lado da televisão, escondida entre imagens e estática, Nyxara observava o mundo pela primeira vez em séculos.

Ela contemplou cidades, janelas, quartos, igrejas, tribunais e milhões de casas onde a violência ainda aprendia a fingir que era amor.

Então sorriu.

A prisão de Zack acabava de começar.

A de Nyxara acabava de terminar.

E o mundo, ocupado demais assistindo ao noticiário, não percebeu que o véu já não separava coisa alguma.




Os preparativos para o Halloween deste ano já começaram!

A Bruxa Nyxara está chamando você!



 
 
 

1 comentário

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Francis Wolf
23 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Mais uma excelente narrativa da autora.

Aqui, o martírio de Lúcia parece ter chegado ao fim; o de Zack, apenas começado.

Estamos no Tribunal do Júri, um ritual apavorante montado no quarto dos quadros de vítimas fatais, onde Lúcia, uma vítima viva sofrida nas mãos de seu algoz por muitos anos, faz as vezes do advogado de acusação.

Sem defesa, como se possível houvesse um defensor para crimes hediondos, Zack é exposto a julgamento e sentença decididos por um corpo de jurados mortos estampados em seus quadros na parede. No local, uma Juíza fluida, mágica, embora distante e entre brumas que não assina a condenação. O seu nome é Nyxara.

Em sua função de acusar, Lúcia discorre a ressaltar…

Curtir

Para assuntos de imprensa, contate o agente da autora:

Mensagem enviada!

© 2025 Luna Bela Morte. Todos os direitos reservados.

Scriptura.png

Esta obra literária está protegida pela Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais). 
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida, distribuída ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, sem autorização expressa da autora, exceto nos casos previstos em lei.
Os dados pessoais coletados por este site serão tratados conforme a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018).

Contato:

contato@lunabelamorte.prosaeverso.net

• Site: lunabelamorte.prosaeverso.net

bottom of page