A pintura antes da morte (parte 3)
- Luna Bela Morte

- 20 de jun.
- 13 min de leitura

Parte III
A Isca
Lúcia acordou com o corpo coberto por dores que não possuíam nome.
A manhã atravessava as cortinas em faixas pálidas, iluminando o quarto como uma lâmpada acesa dentro de um necrotério. Por alguns segundos, ela não soube onde estava. Sentiu apenas o gosto seco de sangue na boca, o peso dos músculos feridos e um frio que parecia ter se instalado por baixo da pele.
Então viu as roupas rasgadas no chão.
E lembrou.
A memória não voltou inteira. Veio em fragmentos.
A mão de Zack.
O tecido cedendo.
O colchão.
A sombra junto à porta.
As três batidas sob a cama.
Lúcia fechou os olhos, mas não havia mais abrigo dentro deles. O corpo guardava aquilo que a mente tentava recusar. Cada movimento era uma confissão involuntária.
Ela puxou o lençol sobre si.
A mancha de sangue permanecia no tecido.
Escura.
Seca nas bordas.
No centro, ainda conservava um vermelho profundo, quase negro.
Lúcia tocou a marca.
O quarto estava silencioso, mas alguma coisa parecia respirar sob o assoalho.
Uma presença.
Ou apenas a consciência de que nunca mais estaria verdadeiramente sozinha.
A porta abriu.
Zack entrou sem bater.
Estava barbeado, vestido e perfumado. Usava uma camisa clara, calças escuras e o relógio que Suzana lhe dera no primeiro aniversário de casamento.
Parecia um homem a caminho de uma reunião.
Não o animal que, poucas horas antes, transformara aquele quarto em território de punição.
Carregava uma bandeja com café e pão.
A normalidade era sua máscara favorita.
“Levante.”
Lúcia não respondeu.
Zack colocou a bandeja sobre a cômoda.
“Eu disse para levantar.”
Ela puxou o lençol com mais força.
“Não consigo.”
“Consegue.”
“Estou cansada.”
“Você dormiu a noite inteira.”
Lúcia olhou para ele.
Havia algo de obsceno na facilidade com que pronunciava aquelas palavras.
Como se a noite tivesse sido apenas noite.
Como se não houvesse sangue.
Como se o corpo dela não fosse prova.
Zack aproximou-se e puxou o lençol.
Lúcia agarrou-o, mas não tinha força suficiente.
“Vista-se.”
Ele lançou uma peça de roupa sobre a cama.
Um vestido preto de mangas compridas.
“Por quê?”
“O quadro.”
Lúcia sentiu o estômago se contrair.
“Não.”
Zack permaneceu imóvel.
“Repita.”
Ela baixou os olhos.
A coragem ainda existia dentro dela, mas estava enterrada sob dor, cansaço e uma longa educação em medo.
“Eu não consigo pintar hoje.”
“Beatriz vem esta noite.”
Lúcia ergueu o rosto.
“Hoje?”
“Talvez.”
“Você disse que ainda não estava pronto.”
“E não está.”
Zack olhou para as mãos dela.
“Porque você não terminou.”
Lúcia respirou devagar.
“Deixa ela em paz.”
A resposta veio como um golpe na parede ao lado da cama.
Zack bateu com o punho tão perto do rosto dela que a madeira estremeceu.
“Você não decide quem merece paz.”
O rosto dele permaneceu calmo.
Somente os olhos haviam mudado.
“Levante.”
Lúcia vestiu-se.
Cada gesto exigia esforço. O tecido tocando os hematomas provocava pequenas explosões de dor. Zack esperou junto à porta, observando.
Não ofereceu ajuda.
Não por ausência de gentileza.
Mas porque desejava vê-la obedecer apesar da dor.
A obediência tinha mais valor quando custava alguma coisa.
O quadro de Beatriz permanecia no quarto particular.
A cadeira.
A janela aberta.
As cortinas brancas.
O vestido azul.
As mãos repousadas sobre o colo.
Atrás dela, a figura masculina segurando uma lâmina.
E, quase escondida entre as cortinas, a sombra feminina que Zack ainda não percebera.
Lúcia sentou-se diante do cavalete.
As mãos tremiam.
“Falta o rosto”, disse Zack.
“Já está pintado.”
“Não.”
Ele apontou para os olhos de Beatriz.
“Ainda parecem vivos.”
Lúcia fechou os dedos ao redor do pincel.
“Ela está viva.”
“Por enquanto.”
Zack aproximou-se do quadro.
“Mas a pintura não deve registrar o que ela é. Deve registrar o que será.”
“Você fala como se isso fosse inevitável.”
Ele sorriu.
“É.”
Lúcia mergulhou o pincel em uma mistura de cinza e azul.
Os olhos de Beatriz desapareceram sob camadas frias.
Enquanto pintava, pensou na cafeteria onde haviam se conhecido. Beatriz usava um casaco amarelo e carregava uma pasta cheia de fotografias.
Tinha dito que gostava de prédios abandonados porque edifícios antigos não fingiam estar inteiros.
Lúcia quase rira.
Agora entendia.
A casa onde vivia também não estava inteira.
Mas fingia.
Fingia tão bem que os vizinhos jamais perguntavam por que as janelas permaneciam fechadas.
Zack colocou música no pequeno aparelho sobre a estante.
Uma composição lenta de piano.
Ele gostava de música enquanto assistia Lúcia pintar mortes.
Dizia que ajudava na concentração.
A humanidade produz sinfonias, pinturas e poemas, depois se espanta quando um monstro tenta usar a beleza como álibi. Como se estética pudesse absolver caráter.
“Mais pálida”, disse Zack.
Lúcia acrescentou branco ao rosto de Beatriz.
“Agora a boca.”
Ela escureceu os lábios.
“E a lâmina.”
O metal ganhou reflexos.
“Não esqueça o sangue.”
Lúcia parou.
Zack pousou a mão em seu ombro.
“Continue.”
Ela pintou uma linha vermelha descendo pelo vestido azul.
Não perguntou onde o corte deveria estar.
Já sabia.
Vira a cena tantas vezes nos sonhos que o quadro parecia existir antes de suas mãos.
A sombra junto à cortina tornou-se mais nítida enquanto ela trabalhava.
Os cabelos longos.
O corpo estreito.
A cabeça inclinada.
Lúcia não se lembrava de acrescentar detalhes.
Mesmo assim, a figura crescia.
Zack não percebeu.
Seus olhos estavam presos a Beatriz.
Ao terminar, Lúcia largou o pincel.
“Pronto.”
Zack examinou a tela.
Levou alguns minutos.
Depois assentiu.
“Agora sim.”
Lúcia tentou se levantar.
O quarto girou.
As paredes cobertas por mulheres mortas inclinaram-se sobre ela. Os rostos pintados pareciam abrir a boca ao mesmo tempo.
Renata.
Camila.
Todas.
“Lúcia?”
A voz de Zack tornou-se distante.
Ela segurou a borda do cavalete.
Os joelhos cederam.
O último som que ouviu antes de desmaiar foi o quadro de Beatriz batendo levemente contra a parede.
Como se alguma coisa lá dentro pedisse passagem.
Zack esperou até ter certeza de que Lúcia dormia.
Deixou-a no quarto sem cobertor, jogada sobre a cama como uma ferramenta que seria recolhida depois.
Tomou banho.
Escolheu uma camisa azul-marinho.
Passou perfume.
Antes de sair, entrou no quarto dos retratos e contemplou Beatriz.
A pintura ainda estava fresca.
A sombra entre as cortinas parecia um pouco maior.
Zack aproximou o rosto.
Por um instante, teve a impressão de que a figura o observava.
Piscou.
Nada se moveu.
“Cansaço”, murmurou.
Fechou a porta.
Beatriz saiu de casa com o uniforme do colégio.
A mãe preparava café na cozinha. O pai lia notícias no celular, sentado à mesa.
“Tenho prova hoje”, mentiu.
A mãe colocou uma fruta na mochila dela.
“Volta direto para casa.”
“Volto.”
Beatriz beijou o rosto dos dois.
Não sentiu culpa.
Sentiu excitação.
Zack a esperava duas ruas adiante.
O carro estava estacionado sob uma árvore. Quando ela se aproximou, ele abriu a porta do passageiro.
“Uniforme?”
“Precisava convencer meus pais.”
Ele sorriu.
“Você fica bonita mentindo.”
Beatriz entrou.
A frase deveria ter provocado desconforto.
Mas Zack a disse como elogio.
E elogios, quando chegam no momento exato, conseguem disfarçar a forma de uma ameaça.
Ele dirigiu para longe do colégio.
Beatriz perguntou para onde iam.
“Um lugar onde ninguém vai interromper.”
Ela ficou em silêncio.
Zack tocou sua perna e pôs sua mão entre as coxas dela por alguns segundos, depois voltou a segurar o volante. Ela se sentiu excitada. Assustada, no início, mas deixou.
“Está com medo?”
“Não.”
“Pode desistir.”
Ele sabia que oferecer uma falsa escolha era uma forma elegante de impedir a recusa.
Beatriz olhou pela janela.
“Não quero desistir.”
O motel ficava numa estrada litorânea, afastado do centro. Era pequeno, discreto e cercado por muros altos. O tipo de lugar onde funcionários eram treinados para não lembrar rostos.
Zack pagou em dinheiro.
Entraram sem chamar atenção.
No quarto, fechou as cortinas.
Beatriz retirou o casaco e sentou-se na beira da cama. Parecia nervosa, mas sorria.
Zack aproximou-se devagar.
Falou sobre confiança.
Sobre desejo.
Sobre como ela o fazia sentir-se jovem.
Disse que jamais conhecera alguém como ela.
Era mentira.
Dizia o mesmo a todas.
O conteúdo mudava pouco. Apenas o nome da mulher era substituído.
Ele tirou as roupas dela e a deixou completamente nua. Fez ela sentar-se no colo dele, e chupou os peitos pequenos dela, enquanto a acariciava entre suas pernas. Ela gemeu de prazer, e ele a beijou.
Transaram. Ele a tratou como se fosse uma puta. Ela deixou.
Ela gritou...
Passaram a tarde no quarto.
Zack foi gentil enquanto precisava parecer gentil.
Ofereceu água.
Fez perguntas.
Prometeu encontros futuros.
Falou sobre viajar com ela.
Sugeriu que, em breve, poderia apresentá-la aos amigos como alguém especial.
Beatriz acreditou.
Não porque fosse tola.
Mas porque ele havia criado uma versão de futuro e a colocou dentro dela.
Ao saírem, horas depois, Beatriz segurava sua mão.
“Quando vou ver você de novo?”
“Mais cedo do que imagina.”
Ela sorriu.
Zack beijou sua boca.
Já sabia que seria naquela noite.
Lúcia acordou sozinha.
O quarto estava escuro.
Não sabia quanto tempo dormira.
A cabeça doía. A boca estava seca. A roupa grudava no corpo por causa do suor.
Levantou-se com dificuldade.
Chamou por Zack.
Nenhuma resposta.
A casa parecia vazia.
Desceu.
O copo de café da manhã ainda estava sobre a mesa. O carro não se encontrava na garagem.
Zack havia saído.
Lúcia procurou o celular. Estava descarregado.
Ligou-o na tomada e esperou.
Nenhuma mensagem.
Nem de Beatriz.
Nem de Zack.
Ela entrou no quarto particular.
O quadro estava pendurado.
Pronto.
Beatriz permanecia sentada diante da janela, morta numa cena que ainda não acontecera.
A sombra de Nyxara surgia atrás da cortina.
Agora havia um rosto.
Não completo.
Apenas olhos negros.
Lúcia sentiu a raiva crescer.
“Você prometeu uma chance.”
A pintura não respondeu.
“Você estava lá.”
A sombra continuou imóvel.
“Você viu.”
Lúcia aproximou-se.
“E não fez nada.”
As luzes piscaram.
Uma corrente fria atravessou o quarto.
Lúcia recuou.
A voz de Nyxara não veio.
Ainda assim, ela soube onde deveria procurá-la.
A maré estava baixa quando Lúcia chegou à caverna.
O céu começava a escurecer, e as montanhas projetavam sombras longas sobre a enseada.
Ela atravessou as pedras sem cuidado.
Escorregou duas vezes.
Não sentiu dor.
Entrou na caverna segurando o celular como lanterna.
“Nyxara!”
O nome ecoou.
Nenhuma resposta.
Lúcia avançou.
“Você disse que me ofereceria vingança.”
Silêncio.
“Você disse que estava comigo.”
A luz revelou as marcas na pedra.
Os círculos.
As linhas.
Os símbolos.
“Você estava no quarto.”
Uma corrente fria passou por ela.
“Eu vi você.”
Finalmente, a voz surgiu:
“E eu vi você.”
Lúcia apertou os dentes.
“Então por que não fez nada?”
A escuridão pareceu crescer.
“Eu pedi sua confiança?”
“Você pediu meu sangue.”
“Não.”
A voz tornou-se mais grave.
“Eu disse para não escondê-lo.”
“Qual é a diferença?”
“Tudo.”
Lúcia avançou mais um passo.
“Ele me machucou.”
“Eu sei.”
“Ele…”
A palavra não saiu.
O corpo recusou-se a pronunciá-la.
Nyxara respondeu sem suavidade:
“Não transforme o que ele fez em vergonha sua.”
Lúcia sentiu os olhos arderem.
“Você podia ter impedido.”
“Não.”
“Mentira.”
A caverna estremeceu.
A lanterna apagou-se.
Lúcia ficou cercada pela escuridão.
A voz de Nyxara surgiu de todos os lados ao mesmo tempo:
“Cuidado.”
O chão pareceu inclinar-se.
Uma pressão invisível pesou sobre os ombros de Lúcia.
Ela tentou permanecer ereta.
Não conseguiu.
Os joelhos tocaram a pedra.
“Não me confunda com uma sombra doméstica que atravessa paredes para remendar as tragédias dos vivos.”
Cada palavra fazia o ar vibrar.
“Não sou sua mãe.”
A pressão aumentou.
“Não sou santa.”
Lúcia baixou a cabeça.
“E não sou serva convocada pelo sofrimento de quem ainda acredita que ajuda e obediência são a mesma coisa.”
A caverna tornou-se silenciosa.
Lúcia respirava com dificuldade.
Nyxara continuou:
“Estou presa além do véu. Posso tocar imagens. Posso abrir sonhos. Posso atravessar sangue.”
A pressão desapareceu.
“Mas ainda não posso tocar a carne dele.”
Lúcia permaneceu ajoelhada.
A raiva havia diminuído.
Não porque Nyxara a tivesse convencido.
Porque sua presença tornava qualquer desafio uma espécie de suicídio espiritual.
“Então por que me chamou?”
“Porque você pode tocá-lo.”
Lúcia ergueu os olhos para a escuridão.
“Você precisava do meu sangue.”
“Sim.”
“Para quê?”
“Para entrar onde nenhuma chave humana alcança.”
“Na casa?”
“Em você.”
Lúcia sentiu algo frio tocar sua testa.
Não eram dedos.
Era uma ideia com forma de toque.
“Seu sangue caiu diante da minha sombra”, disse Nyxara. “Agora conheço o caminho até sua mente.”
Lúcia tentou afastar-se.
Não conseguiu.
“Não tenha medo.”
“Você acabou de mandar eu não confundir você com uma salvadora.”
“E não sou.”
A voz aproximou-se.
“Mas posso abrir uma porta.”
A escuridão atravessou Lúcia.
Não pelos olhos.
Pela memória.
Ela viu Suzana rindo junto ao mar.
Viu peixes pequenos nadando na água suja.
Viu a vara de pesca rachada.
Viu a mão de Zack segurando a fita vermelha.
Viu Beatriz no quadro.
Viu anzóis.
Cordas.
Pedras.
A maré avançando.
A caverna respirando.
Então uma imagem surgiu com clareza brutal.
Uma oportunidade.
Estava no mar.
Não no mar aberto.
Na água suja.
No lugar onde os peixes pequenos sobreviviam entre detritos.
Lúcia sentiu uma instrução ser colocada dentro de sua mente.
Não em palavras.
Em gestos.
Uma sequência.
Um plano que seu corpo compreendeu antes que sua consciência pudesse nomeá-lo.
A vara.
A linha.
A isca.
Ela abriu os olhos.
“Preciso pescar.”
Nyxara permaneceu em silêncio.
“É isso?”
“Você já viu.”
“O quê?”
“Não tente traduzir agora.”
“Mas eu preciso saber…”
“Você sabe.”
Lúcia tocou a própria testa.
A imagem estava lá.
Oculta, mas inteira.
Como um sonho do qual lembramos apenas no instante necessário.
“Volte para casa”, disse Nyxara.
Lúcia levantou-se.
“Zack ainda está fora.”
A caverna respondeu:
“Não.”
O sangue de Lúcia gelou.
“Ele voltou?”
“Sim.”
“E Beatriz?”
A voz demorou.
Lúcia não precisou ouvir.
Começou a correr.
A porta da casa estava aberta.
Lúcia entrou chamando por Beatriz.
Nenhuma resposta.
O cheiro veio primeiro.
Perfume.
Vinho.
Ferro.
Subiu as escadas.
A porta do quarto particular estava entreaberta.
Lúcia empurrou-a.
Beatriz estava sentada na cadeira diante da janela.
As cortinas brancas moviam-se com o vento.
Usava o vestido azul.
As mãos repousavam sobre o colo.
A cabeça estava ligeiramente inclinada.
Atrás dela, a lâmina permanecia caída no chão.
Uma linha escura descia pelo vestido.
Exatamente como no quadro.
Lúcia parou.
Por um instante, o quarto perdeu profundidade. Pintura e realidade tornaram-se a mesma coisa.
Beatriz parecia apenas uma versão tridimensional da tela.
A obra havia devorado o mundo.
“Não…”
Lúcia aproximou-se.
Tocou o ombro da amiga.
Frio.
Os olhos de Beatriz estavam abertos.
Sem vida.
A boca permanecia entreaberta, como se tivesse morrido tentando compreender a mentira.
Lúcia fechou-lhe os olhos.
“Desculpa.”
A palavra desmoronou.
“Desculpa.”
Zack estava sentado no chão junto à parede.
Ela não o percebera ao entrar.
A camisa azul-marinho estava manchada. O cabelo, desarrumado. As mãos tremiam.
Diante dele, uma garrafa de vinho quase vazia.
“Eu não queria”, murmurou.
Lúcia virou-se.
Zack parecia perdido.
Pequeno.
Era outra máscara.
Talvez a mais desprezível.
“Você matou ela.”
“Alguma coisa aconteceu comigo.”
“Você matou Beatriz.”
“Eu não era eu.”
Lúcia olhou para o quadro.
Depois para o corpo.
“Você planejou tudo.”
“Não.”
Zack passou as mãos pelo rosto.
“Foi como se alguém tivesse entrado em mim.”
“Você mandou eu pintar.”
“Eu não sabia.”
“Descreveu a cadeira.”
“Lúcia…”
“As cortinas.”
“Escuta.”
“O vestido.”
Ele se levantou.
“Talvez eu esteja possuído.”
A frase pairou no quarto.
Por um segundo, Lúcia quase riu.
Não de humor.
De exaustão.
“Possuído?”
“Eu sinto alguma coisa me observando.”
Zack apontou para os quadros.
“Desde ontem.”
“Então foi um demônio que matou Renata?”
Ele não respondeu.
“Foi o demônio que matou Camila?”
“Eu não sei.”
“Foi o demônio que jogou minha mãe da escada?”
O rosto dele endureceu.
A máscara de homem perdido começou a rachar.
“Cuidado.”
Lúcia aproximou-se.
“Demônios não precisam de desculpas.”
Zack apertou os punhos.
“Eu estou tentando explicar.”
“Não. Está tentando dividir sua culpa com uma coisa que não pode responder.”
A sombra de Nyxara moveu-se no quadro.
Somente Lúcia percebeu.
“Você sabe exatamente o que faz.”
“Cala a boca.”
“Você escolhe.”
“Cala a boca.”
“Você prepara.”
Zack segurou o braço dela.
“Eu mandei calar.”
Lúcia não desviou o olhar.
Algo nela havia mudado.
O medo continuava existindo, mas já não ocupava tudo.
Havia outra coisa dividindo espaço com ele.
Uma imagem do mar.
Uma vara.
Uma linha estendida sobre água suja.
Zack soltou-a.
Talvez tivesse percebido a mudança.
Talvez não.
“Precisamos limpar.”
Lúcia olhou para Beatriz.
“Precisamos?”
“Você sabe o que fazer.”
“Não.”
Ele ergueu a mão.
Lúcia não recuou.
Zack parou o gesto.
“Não me provoque.”
Ela permaneceu em silêncio.
“Leve o corpo para o carro.”
“E depois?”
“O lugar de sempre.”
Lúcia conhecia o lugar.
Um terreno abandonado próximo à estrada, onde Zack enterrara objetos, roupas e, algumas vezes, corpos inteiros.
“Faça isso agora.”
Lúcia obedeceu.
Mas não porque estivesse vencida.
Obedeceu porque o plano dentro de sua mente ainda não estava completo.
Porque o mar aguardava.
E porque, pela primeira vez, ela sabia que obediência podia ser disfarce.
Carregar Beatriz foi diferente das outras.
As demais mulheres já eram imagens quando Lúcia as conhecera de verdade. Rostos vistos em fotografias, lembranças curtas, conversas interrompidas.
Beatriz possuía voz.
Risada.
Planos.
Tinha dito que desejava fotografar cidades abandonadas.
Tinha falado sobre sair de casa.
Tinha acreditado em Zack.
Lúcia enrolou o corpo num lençol.
Enquanto o arrastava pelo corredor, os quadros batiam levemente contra a parede.
Um após o outro.
Como um cortejo.
Zack observava.
Bebia vinho.
Não ajudou.
Nunca ajudava a carregar as consequências de seus atos.
No carro, Lúcia colocou Beatriz no porta-malas.
Dirigiu sozinha até o terreno.
A noite já havia caído.
Cavou.
Enterrou.
Marcou o local com três pedras.
Não para Zack.
Para si.
Um dia, pensou, os nomes voltariam.
Um dia, alguém saberia onde estavam.
Quando regressou, encontrou Zack na sala.
A garrafa de vinho estava vazia.
Outra permanecia aberta sobre a mesa.
Ele parecia abatido.
“Terminou?”
“Sim.”
“Foi vista?”
“Não.”
Zack assentiu.
“Venha sentar.”
Lúcia permaneceu de pé.
“Estou cansada.”
“Eu também.”
Ele disse aquilo como se o cansaço dos dois tivesse a mesma origem.
Lúcia subiu para o quarto.
Fechou a porta.
Não trancou. A chave ainda não existia.
Esperou.
Ouviu Zack abrir outra garrafa.
Os passos dele atravessaram a sala.
A televisão foi ligada.
Depois desligada.
Mais vinho.
Um copo quebrando.
Por fim, silêncio.
Lúcia esperou mais uma hora.
Desceu descalça.
Zack dormia na poltrona, a cabeça caída para o lado. Um fio de vinho escorria pelo canto da boca.
O homem que aterrorizava a casa parecia quase ridículo adormecido.
Sem controle.
Sem postura.
Apenas carne embriagada.
Lúcia aproximou-se.
Poderia matá-lo naquele instante.
Havia uma garrafa quebrada no chão.
Uma lâmina na cozinha.
O revólver escondido.
Mas Nyxara não lhe mostrara nenhuma dessas coisas.
Mostrara o mar.
Lúcia pegou a vara de pesca junto à parede.
A rachadura no cabo pareceu mais funda.
Suzana havia segurado aquela madeira muitas vezes.
Talvez uma parte de suas mãos ainda permanecesse ali.
Lúcia recolheu a caixa de anzóis.
Linha.
Chumbadas.
Uma pequena faca.
Saiu sem fazer barulho.
A noite estava úmida.
A lua permanecia escondida por nuvens.
Durante o caminho, a instrução dentro de sua mente começou a despertar.
Não inteira.
Apenas o próximo passo.
Lúcia desceu até a enseada.
Passou pela pedra onde pescava com a mãe.
Não parou.
Seguiu até o canto sujo, onde a água permanecia presa entre as rochas.
Os peixes pequenos moviam-se sob a superfície oleosa.
A entrada da caverna era uma boca escura atrás dela.
Lúcia montou a vara.
Prendeu a linha.
Escolheu o anzol.
E ficou diante da água, esperando que a última parte do plano emergisse.
Do interior da caverna, a voz de Nyxara sussurrou:
“Agora escolha a isca.”
Lúcia olhou para o mar sujo.
E começou a pescaria.
(Continua...)
Os preparativos para o Halloween deste ano já começaram!
A Bruxa Nyxara está chamando você!

"A Isca", nesta terceira parte de "A pintura antes da morte", é uma narrativa plena de expectativas. Uma preparação artística bem cuidada para futuros acontecimentos, a curtíssimo prazo e um após outro, dentro da história. Isto, é o que fisga o leitor nesse afiado"anzol literário".
Bastante segura de si, a autora nos transporta para o quarto maldito dos quadros que se debatem na parede - uma fúria assombrada das mulheres contidas no espaço fúnebre das molduras. Na sequência, o retrato de Beatriz já se encontra pronto; ela, morta em uma cadeira.
No interior macabro da Caverna, o diálogo de Lúcia com Nyxara revela uma expressão da bruxa digna de registro: "Não transforme o que ele fez em vergonha sua". Ótim…