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A pintura antes da morte (parte 2)





Parte II

A Caverna Além do Véu

 

O mar era o único lugar onde Lúcia ainda conseguia respirar sem pedir licença.

Na manhã seguinte, saiu de casa antes que Zack acordasse. Levava uma vara de pesca antiga, uma pequena caixa de anzóis e a sacola de lona que pertencera a Suzana. Não deixou bilhete. Não avisou quanto tempo ficaria fora.

Pela primeira vez em muitos meses, fez algo sem submetê-lo à aprovação de alguém.

A vara de pesca tinha uma rachadura perto do cabo. Suzana dizia que aquilo lhe dava personalidade, como se objetos também precisassem de cicatrizes para provar que haviam vivido.

Lúcia passava os dedos pela fenda na madeira sempre que desejava lembrar-se dela.

Não da mulher silenciosa dos últimos anos.

Não da mãe que diminuía a voz quando Zack entrava na sala.

Lembrava-se de Suzana antes dele.

A mulher que ria alto quando um peixe escapava.

A mulher que caminhava descalça sobre as pedras, erguendo as calças até os joelhos, sem se importar com a lama.

A mulher que ensinara à filha a colocar a isca no anzol e a esperar.

“Pescar é conversar com o que está escondido”, costumava dizer. “Você lança uma pergunta na água e descobre se alguma coisa lá embaixo deseja responder.”

Naquele tempo, Lúcia acreditava que a mãe falava apenas de peixes.

Agora suspeitava que Suzana jamais falara apenas de alguma coisa.

A estrada até o litoral atravessava uma região pouco habitada, onde as montanhas se erguiam sobre o mar como corpos antigos ajoelhados diante de uma divindade esquecida.

Havia paredões de pedra cobertos por vegetação, trilhas estreitas e cavernas escavadas pela insistência das marés.

O céu estava limpo, mas o vento carregava cheiro de tempestade.

Lúcia desceu por uma passagem entre as rochas até alcançar a pequena enseada onde Suzana costumava levá-la.

O lugar parecia menor.

As lembranças sempre aumentavam os espaços que amávamos.

A pedra onde se sentavam continuava ali, larga e achatada, marcada por manchas claras de sal. Lúcia largou a sacola, preparou a linha e lançou o anzol.

Por algum tempo, nada aconteceu.

Era exatamente o que desejava.

Nenhuma chave girando.

Nenhum passo no corredor.

Nenhum quadro esperando para receber o rosto de uma mulher viva.

Apenas o movimento da água.

O mar avançava e recuava, indiferente às pequenas tiranias humanas. Havia algo consolador naquela indiferença. O oceano não prometia justiça, nem bondade, nem resgate.

Não exigia gratidão.

Apenas existia.

Lúcia fechou os olhos.

O vento tocou o hematoma próximo ao maxilar. O sal ardeu levemente na pele ferida, mas era uma dor limpa. Uma dor sem intenção.

A dor do mar não desejava ensiná-la a obedecer.

Perto dali, a linha se moveu.

Ela abriu os olhos, segurou a vara e puxou.

Um peixe pequeno surgiu debatendo-se na extremidade do anzol. Suas escamas devolviam fragmentos de luz. Lúcia retirou-o com cuidado e o segurou por alguns segundos.

Era jovem demais.

Pequeno demais.

Ainda tinha muito mar para atravessar.

“Você não”, murmurou.

Devolveu-o à água.

O peixe desapareceu sob a superfície.

Lúcia observou o círculo produzido pela queda até que ele se desmanchasse por completo.

Suzana sempre devolvia os peixes pequenos.

Dizia que sobreviver já era trabalho suficiente. Não havia necessidade de punir uma criatura por ainda não ter crescido.

Zack pensaria o contrário.

Zack gostava do que era pequeno.

Do que podia ser dobrado.

Do que ainda não aprendera a morder.

Lúcia continuou pescando até o sol alcançar o alto do céu. Conseguiu dois peixes maiores, guardou apenas um e soltou o outro.

Durante aquelas horas, sentiu-se quase normal.

A palavra lhe pareceu estranha.

Normalidade talvez fosse apenas um intervalo entre duas formas de medo.

Mesmo assim, havia paz naquele lugar. Uma paz imperfeita, com cheiro de sal e pedras molhadas. Paz suficiente para que Lúcia voltasse a ouvir os próprios pensamentos.

Quando recolheu a linha, sabia que deveria regressar.

Zack notaria sua ausência.

Perguntaria.

Depois transformaria cada resposta numa nova acusação.

Ainda assim, ela não voltou.

Seguiu pela margem, contornando as formações rochosas. Caminhou até uma parte da enseada onde o mar penetrava entre as pedras e formava pequenas piscinas naturais.

Suzana não gostava daquele lugar.

“A água fica presa aqui”, dizia. “E tudo o que fica preso por tempo demais começa a apodrecer.”

Lúcia lembrava-se de um canto especialmente sujo, escondido entre dois paredões. Garrafas, pedaços de plástico, folhas mortas e fragmentos de rede acumulavam-se na superfície.

A água tinha uma coloração turva.

Havia uma película oleosa sobre ela, deformando o reflexo do céu.

Mesmo assim, pequenos peixes se moviam ali.

Eram menores que os peixes do mar aberto. Alguns tinham manchas escuras nas escamas. Nadavam entre latas enferrujadas e resíduos trazidos pela maré, procurando alimento num fundo coberto de sujeira.

Lúcia se agachou.

Um dos peixes atravessou uma mancha de óleo e desapareceu sob uma embalagem rasgada.

Aquela vida não havia escolhido a água em que nascera.

Apenas aprendera a respirar dentro dela.

Lúcia olhou para as próprias mãos.

A tinta ainda permanecia sob algumas unhas.

Preto.

Vermelho.

Pequenos resíduos das pinturas que Zack a obrigava a criar.

Pensou em Renata.

Camila.

Nas outras mulheres cujos rostos aprendera a desenhar antes que fossem encontrados sem vida.

Pensou em Beatriz.

No vestido azul que Zack mandara pintar.

Nas cortinas brancas.

Na figura com a lâmina.

Na sombra feminina que sua própria mão acrescentara sem compreender.

A sujeira estava em toda parte.

Nos pincéis.

Nas mensagens enviadas às vítimas.

Nos convites.

Nos silêncios.

Ela estava dentro da água suja, como aqueles peixes.

Mas havia uma diferença cruel.

Os peixes não sabiam que existia um oceano do outro lado das pedras.

Lúcia sabia.

E continuava presa.

“Você não é a água.”

A voz surgiu atrás dela.

Lúcia se levantou depressa.

Não havia ninguém.

Apenas o paredão, a vegetação baixa e o mar batendo contra as pedras mais distantes.

“Quem está aí?”

O vento mudou de direção.

Uma corrente fria atravessou a enseada e fez a superfície suja estremecer.

Os peixes desapareceram.

Lúcia ouviu novamente:

“Eu senti a violência, e ouvi seu choro. Venha até mim, criança...”

A voz era feminina.

Baixa.

Não parecia sair de uma garganta. Vinha das pedras, da água e de um lugar mais profundo, instalado atrás dos pensamentos.

Lúcia permaneceu imóvel.

Havia alguma coisa familiar naquela voz.

Não como algo escutado durante o dia.

Como uma lembrança retirada de um sonho.

Ela fechou os olhos.

Viu as cortinas brancas do quadro.

A janela.

A cadeira onde Beatriz aparecia sentada.

No canto da pintura, a sombra feminina permanecia junto à porta entreaberta.

Lúcia sonhara com ela nas últimas noites.

A figura nunca mostrava o rosto. Apenas erguia a mão e a chamava.

No sonho, Lúcia tentava se aproximar, mas acordava antes de atravessar a porta.

Agora, a voz era a mesma.

“Venha.”

Atrás da piscina natural, raízes e arbustos escondiam uma abertura estreita no paredão.

Uma caverna.

Lúcia já a vira outras vezes, mas nunca entrara. Suzana dizia que a maré podia subir rapidamente e aprisionar quem estivesse dentro.

Naquele momento, porém, o oceano parecia distante.

A abertura exalava um frio que não pertencia ao clima.

Lúcia pegou o celular e acendeu a lanterna.

O feixe iluminou uma passagem estreita, pedras úmidas e um chão coberto por areia escura.

Ela deveria ir embora.

Qualquer pessoa razoável faria isso.

Mas a razão era um luxo estranho para alguém que dormia a poucos metros de um quarto cheio de assassinatos pintados.

Lúcia entrou.

O som do mar desapareceu após poucos passos.

Não diminuiu.

Desapareceu.

Era como se a entrada da caverna não conduzisse apenas ao interior da montanha, mas para fora do próprio mundo.

O chão inclinava-se levemente.

Água escorria pelas paredes em linhas negras.

O ar tinha cheiro de ferro, terra e alguma coisa que lembrava flores queimadas.

“Estou aqui”, disse Lúcia.

Sua voz retornou em fragmentos.

Aqui.

Aqui.

Aqui.

A luz do celular alcançava apenas alguns metros. Além dela, a escuridão parecia possuir densidade.

Lúcia caminhou até que a entrada se tornasse uma pequena ferida clara atrás de si.

Não encontrou ninguém.

Nenhum corpo.

Nenhuma mulher.

Apenas pedra e sombra.

“Você me chamou.”

Silêncio.

Lúcia apontou a lanterna para as paredes.

Havia marcas na rocha. Linhas curvas, círculos cortados e símbolos que poderiam ser apenas rachaduras.

Ou escrita.

Ela aproximou a mão, mas não tocou.

“Quem está aí?”

Uma gota caiu do teto e atingiu seu ombro.

O líquido era gelado.

Quando Lúcia passou os dedos sobre ele, percebeu que tinha uma coloração escura.

Quase negra.

A luz do celular oscilou.

Então a presença respondeu:

“Atendi ao sangue derramado.”

Lúcia girou o corpo.

Nada.

“Que sangue?”

“O de sua mãe.”

A garganta de Lúcia se fechou.

“O das mulheres que ele transformou em coleção.”

A escuridão pareceu aproximar-se.

“E o seu.”

Lúcia recuou.

“Meu sangue não caiu aqui.”

“Todo sangue encontra uma fenda.”

A voz era tranquila.

Não consoladora.

Havia nela uma paciência antiga, sem qualquer urgência humana.

“Você sabe quem eu sou?”, perguntou Lúcia.

“Sei aquilo que fizeram de você.”

“Não foi isso que perguntei.”

Pela primeira vez, a voz pareceu divertir-se.

“Você ainda sabe fazer perguntas exatas. Ele não conseguiu destruir tudo.”

Lúcia apertou o celular.

“Mostre-se.”

“Não posso.”

“Então você não está aqui.”

“Estou mais presente do que muitos que dividem a mesa com você.”

Um movimento ocorreu além do feixe da lanterna.

Lúcia ergueu a luz.

Por um instante, viu uma silhueta feminina junto à parede.

Alta.

Imóvel.

Os cabelos longos pareciam feitos da mesma escuridão da caverna.

Onde deveria haver olhos, existiam apenas duas cavidades negras.

Lúcia piscou.

A figura desapareceu.

Seu coração batia com violência.

“Foi você”, murmurou.

“Eu o quê?”

“A sombra.”

A água que escorria pelas paredes parou.

Toda ela.

Como se a caverna tivesse prendido a respiração.

“A sombra no quadro de Beatriz.”

A voz veio mais próxima:

“Sim.”

Lúcia sentiu o frio tocar sua nuca.

“Por que eu pintei você?”

“Porque sua mão alcançou uma fenda antes que sua mente pudesse fechá-la.”

“Você entrou no quadro?”

“Uma parte.”

“Para quê?”

“Para ser vista.”

Lúcia olhou para o interior da caverna.

“Qual é o seu nome?”

O silêncio durou alguns segundos.

Então a pedra pareceu pronunciar junto com a voz:

“Nyxara.”

O nome atravessou Lúcia como algo já conhecido.

Como uma palavra esquecida antes do nascimento.

“Você é um fantasma?”

“Não.”

“Uma bruxa?”

“Já fui chamada assim.”

“O que é agora?”

A resposta veio lentamente:

“Uma prisioneira que aprendeu a transformar a prisão em voz.”

Lúcia sentiu a lanterna enfraquecer.

A escuridão avançou pelas bordas.

“Estou presa além do véu que separa este mundo daquele em que fui encerrada”, continuou Nyxara. “A caverna é uma cicatriz entre os dois. Um lugar onde a realidade se tornou fina o bastante para escutar.”

“Quem prendeu você?”

“Homens que confundiam controle com virtude.”

A voz adquiriu um tom cortante.

“Instituições sobrevivem repetindo essa confusão por séculos.”

Lúcia pensou em Zack.

Na polícia acreditando na morte acidental de Suzana.

Nos vizinhos que ouviam ruídos e aumentavam o volume da televisão.

No mundo inteiro funcionando como uma casa cheia de portas fechadas.

“Por que me chamou?”

“Porque você me pintou.”

“Eu não sabia que estava fazendo isso.”

“Os atos mais importantes raramente pedem permissão à consciência.”

“Você pode impedir Zack?”

“Posso oferecer uma possibilidade.”

“De quê?”

“Vingança.”

A palavra percorreu a caverna.

Não soou como promessa.

Soou como uma porta sendo destrancada.

Lúcia baixou o celular.

“Não quero vingança.”

A escuridão permaneceu silenciosa.

Lúcia ouviu a própria respiração.

Depois, Nyxara respondeu:

“Mentir para mim é inútil. Mentir para si mesma é apenas cansativo.”

“Quero que ele pare.”

“Homens como ele não param. São interrompidos.”

“Quero salvar Beatriz.”

“Então precisará fazer mais do que fugir.”

Lúcia lembrou-se da jovem sorrindo na cafeteria, contando sobre os próprios sonhos, falando com entusiasmo sobre exposições e viagens.

Beatriz ainda não sabia que sua morte já possuía cores.

“Ele está com ela?”

“Sim.”

“Agora?”

“Agora.”

 

 

Zack escolhera um restaurante próximo ao litoral.

A mesa ficava junto à janela, de frente para o mar. A luz do fim da tarde desenhava sombras elegantes sobre seu rosto.

Beatriz usava um vestido azul-escuro.

O mesmo tom que Lúcia colocara na pintura.

Ela segurava uma taça de vinho e observava Zack como quem já havia começado a construir uma versão ideal dele.

Duas semanas haviam se passado desde que Lúcia se aproximara dela numa pequena exposição.

A amizade crescera com facilidade.

Beatriz gostava de pinturas abstratas, livros policiais e fotografias de prédios antigos. Falava depressa quando ficava animada e tinha o hábito de tocar o próprio brinco antes de contar alguma coisa íntima.

Lúcia aprendera tudo isso.

Depois, Zack também.

Ele apareceu primeiro como padrasto preocupado.

Depois, como viúvo solitário.

Por fim, como homem incompreendido.

Era assim que construía suas armadilhas. Não com força.

Com versões.

“Não pensei que voltaria a me sentir assim”, disse Zack.

Beatriz baixou os olhos.

“Assim como?”

Ele demorou a responder.

A demora era calculada.

“Vivo.”

Beatriz sorriu.

Zack tocou a mão dela sobre a mesa.

Não apertou.

Apenas permitiu que os dedos permanecessem ali, leves o bastante para parecerem vulneráveis.

“Depois da morte de Suzana”, continuou, “achei que aquela parte de mim tivesse sido enterrada com ela.”

“Você a amava muito?”

Zack olhou para o mar.

A expressão de tristeza surgiu com a precisão de uma máscara usada muitas vezes.

“Mais do que ela soube.”

Beatriz sentiu pena.

Era o primeiro triunfo de Zack.

A pena abria portas que o desejo ainda não conseguia alcançar.

“Lúcia fala pouco sobre a mãe”, disse Beatriz.

“O luto afetou muito a menina.”

“Ela parece assustada.”

Zack retirou a mão.

O movimento sugeria dor.

“Lúcia não está bem desde o acidente.”

“Que tipo de problema ela tem?”

“Eu não deveria falar.”

Beatriz inclinou-se.

“Pode confiar em mim.”

“Às vezes ela confunde lembranças. Inventa coisas. Acredita que as pessoas querem machucá-la.”

“Ela disse alguma coisa sobre você?”

Zack observou-a.

Beatriz desviou os olhos.

“Não exatamente.”

“Ela sempre teve uma imaginação intensa. A pintura piorou isso.”

“Piorou?”

“Lúcia não retrata o mundo. Ela cria versões e depois passa a acreditar nelas.”

A mentira possuía uma utilidade dupla.

Quando Beatriz visse os quadros, Zack já teria plantado nela a ideia de que eram fantasias de Lúcia.

Um predador eficiente não escondia provas.

Ensinava a vítima a interpretá-las de maneira errada.

Zack tocou novamente a mão de Beatriz.

“Não quero falar de tristeza esta noite.”

“Sobre o que quer falar?”

“Sobre você.”

Beatriz sorriu.

A partir daquele instante, estava perdida.

Não porque fosse ingênua.

Mas porque Zack possuía o talento de detectar ausências. Descobria o espaço exato onde alguém desejava ser visto e instalava-se ali.

Durante o jantar, escutou histórias sobre a infância dela.

Fez perguntas sobre seus medos.

Disse admirar sua inteligência.

Confessou sentir algo que não sentia havia anos.

Quando saíram do restaurante, Beatriz já acreditava ter encontrado um homem ferido que precisava ser amado com paciência.

Zack sabia que certas mulheres haviam sido educadas para interpretar sofrimento masculino como convocação.

A humanidade chamava isso de sensibilidade.

Ele chamava de entrada.

Junto ao carro, Beatriz tocou o rosto dele.

Zack a beijou.

Sem pressa.

Sem violência.

A violência viria depois, quando já não precisasse fingir.

Beatriz correspondeu.

Ao se afastar, ela sorria como alguém que acabara de descobrir uma promessa.

Zack sorriu também.

Mas pensava no quadro.

 

 

Na caverna, Lúcia sentiu uma pressão no peito.

Uma imagem atravessou sua mente.

Beatriz diante do mar.

Zack tocando seu rosto.

O beijo.

Lúcia abriu os olhos com dificuldade.

“Ele já a seduziu.”

“Sim”, respondeu Nyxara.

“Ela está apaixonada?”

“A paixão ainda não. Mas já deseja acreditar nele. Para alguns, isso basta.”

“Preciso avisá-la.”

“Ela não ouvirá.”

“Ela é minha amiga.”

“Ele está ensinando-a a duvidar de você.”

Lúcia sentiu raiva.

“Então me diga como impedi-lo.”

“Volte para casa.”

“E depois?”

“Espere.”

“Esperar é o que fiz a vida inteira.”

“Não. Você suportou. Existe diferença.”

A voz tornou-se mais próxima.

“Volte para casa, Lúcia.”

“Ele vai perceber que fiquei fora.”

“Sim.”

“Vai me machucar.”

“Sim.”

A resposta veio sem hesitação.

Lúcia sentiu nojo daquela serenidade.

“E mesmo assim quer que eu volte?”

“Não quero coisa alguma. Ofereço uma chance.”

“Uma chance de quê?”

“De fazer o quarto dele obedecer a outra pintora.”

Lúcia permaneceu imóvel.

“O que isso significa?”

“Significa que Zack acredita comandar as imagens.”

Uma corrente de ar percorreu a caverna.

“Chegou o momento de pintar algo que ele não descreveu.”

A luz do celular apagou-se.

Lúcia mergulhou na escuridão completa.

“Nyxara?”

A presença parecia estar em toda parte.

“Vá.”

“Como vou encontrar você novamente?”

“Você não precisa encontrar aquilo que já entrou em sua sombra.”

A entrada da caverna tornou-se visível atrás de Lúcia. A luz externa, antes distante, agora parecia estar a poucos passos.

Ela não compreendeu como.

“Espere.”

Nenhuma resposta.

“Nyxara.”

Por um instante, dois olhos negros surgiram na escuridão.

Não refletiam luz.

Absorviam.

“Volte para casa, criança.”

A voz atravessou Lúcia pela última vez.

“E quando ele derramar seu sangue novamente, não o esconda.”

 

 

O sol desapareceu antes que Lúcia alcançasse a estrada.

A caminhada de volta pareceu mais longa.

O vento aumentara, e nuvens escuras cobriam o céu. Ela carregava a vara de pesca, a sacola e o único peixe que decidira levar.

Durante todo o caminho, sentiu que alguma coisa a acompanhava.

Não passos.

Uma alteração no ar.

De vez em quando, sua sombra parecia mover-se um segundo depois do corpo.

Ao chegar em casa, encontrou todas as luzes acesas.

O carro de Zack estava estacionado diante da garagem.

Lúcia parou junto ao portão.

Poderia fugir.

A estrada continuava atrás dela.

Poderia caminhar até a cidade, procurar a polícia, bater à porta de qualquer casa.

Mas pensou em Beatriz.

Pensou nos quadros.

Pensou na voz de Nyxara.

Homens como ele não param. São interrompidos.

Lúcia entrou.

A porta da casa estava destrancada.

Assim que atravessou a sala, percebeu Zack sentado no escuro.

Apenas o abajur próximo à poltrona estava aceso.

Ele segurava um copo.

Não bebia.

Esperava.

“Por onde você andou?”

Lúcia colocou a vara de pesca junto à parede.

“Fui pescar.”

“Eu perguntei onde.”

“No lugar onde minha mãe me levava.”

A menção a Suzana alterou alguma coisa em seu rosto.

Não culpa.

Irritação.

“Você saiu sem avisar.”

“Você estava dormindo.”

“E isso lhe deu o direito de desaparecer?”

Lúcia segurou a sacola com mais força.

“Meu telefone ficou sem bateria.”

“Eu não perguntei sobre seu telefone.”

Zack levantou-se.

O copo permaneceu sobre a mesa.

“Perguntei por que ficou tanto tempo fora.”

“Perdi a noção da hora.”

Ele se aproximou.

“Você perdeu a noção.”

“Sim.”

“Enquanto eu procurava você.”

Lúcia sabia que era mentira.

Zack não procurava pessoas.

Vigiava propriedades.

“Desculpa.”

A palavra saiu por hábito.

Ele parou diante dela.

“Olhe para mim.”

Lúcia ergueu o rosto.

Havia uma marca de batom próxima ao colarinho da camisa dele.

Beatriz.

Zack percebeu que ela olhava.

“Está com ciúme?”

Lúcia sentiu repulsa.

“Não.”

A mão dele atingiu seu rosto antes que tivesse tempo de recuar.

A sacola caiu.

O peixe deslizou para fora e bateu no chão.

Lúcia cambaleou.

Zack segurou-a pelos cabelos.

“Não minta para mim.”

“Eu não estou mentindo.”

Ele a lançou contra a parede.

A cabeça dela atingiu a madeira.

Por um instante, tudo perdeu nitidez.

“Você acha que pode sair quando quiser?”

Lúcia tentou afastar-se.

Zack segurou seu braço.

“Eu só fui pescar.”

“Você foi se encontrar com alguém?”

“Não.”

“Foi à polícia?”

“Não.”

“Falou com Beatriz?”

Lúcia hesitou.

O suficiente.

Zack apertou seu braço até que os dedos dele se tornassem marcas.

“O que você disse a ela?”

“Nada.”

Outro golpe.

Desta vez no estômago.

Lúcia perdeu o ar e caiu de joelhos.

Zack abaixou-se diante dela.

“Você está tentando estragar tudo.”

Ela tentou respirar.

“Não fiz nada.”

“Você sempre faz.”

Ele segurou seu queixo.

“Do mesmo jeito que fez com sua mãe.”

Lúcia ergueu os olhos.

“O que fez com ela?”

Zack ficou imóvel.

A pergunta escapara antes que pudesse ser impedida.

“Repete.”

“O que você fez com minha mãe?”

O rosto dele mudou.

A fachada desapareceu.

Não havia marido enlutado.

Não havia padrasto preocupado.

Apenas o homem do quarto.

Zack puxou Lúcia pelo braço e a obrigou a levantar-se.

Ela tentou se soltar.

Ele a arrastou pelo corredor.

“Me larga!”

Zack apertou ainda mais.

Lúcia tentou se segurar no batente da porta, mas ele torceu seus dedos até que a dor a obrigasse a soltar.

Subiram a escada.

Cada degrau parecia conduzi-la para dentro de uma pintura ainda não terminada.

“Zack, para.”

Ele não respondeu.

Levou-a até o quarto dela.

Empurrou-a para dentro.

Lúcia caiu sobre a cama.

Tentou levantar-se, mas Zack a segurou pelos ombros.

“Você quer agir como uma mulher livre?”

Ele puxou sua blusa com violência.

O tecido rasgou junto à gola.

“Então aprenda o que acontece com mulheres que confundem liberdade com desobediência.”

Lúcia tentou cobrir-se.

Zack arrancou o restante da blusa.

Não havia desejo em seu rosto.

Havia domínio.

A nudez não era intimidade.

Era punição.

Ele queria retirar dela qualquer camada que ainda parecesse proteção, transformar o próprio corpo numa cela sem paredes.

Lúcia chutou-o.

Zack agarrou sua perna e a jogou novamente sobre o colchão.

Rasgou a calça na lateral e puxou o tecido com brutalidade. Botões caíram no chão. A costura cedeu.

“Para!”

Ele a atingiu outra vez.

O gosto de sangue encheu a boca de Lúcia.

Zack arrancou as últimas peças de roupa e as lançou no chão, deixando-a exposta, ferida e tremendo.

Não era nudez.

Era um corpo transformado em território ocupado.

Lúcia abraçou-se, tentando esconder-se dentro dos próprios braços.

Zack segurou seus pulsos e os prendeu contra o colchão.

“Você pertence a esta casa.”

Ela olhou para ele.

Cada penetração era violenta, forçada, e parecia rasgar Lúcia por dentro. Ele não parou até se sentir satisfeito, ejaculando dentro dela.

Por trás do ombro de Zack, a parede parecia escurecer.

Uma sombra começou a subir lentamente, partindo do chão.

Não era a sombra dele.

Tinha cabelos longos.

Permanecia imóvel junto à porta.

A mesma figura do quadro de Beatriz.

Lúcia já tinha deixado de lutar, estava destruída.

Zack interpretou aquilo como rendição.

Sorriu.

“Finalmente entendeu.”

A sombra ergueu uma das mãos.

Na parede, três linhas negras surgiram como marcas de unhas.

Zack não percebeu.

Lúcia sentiu o sangue escorrer do canto da boca até o queixo.

Uma gota caiu sobre o lençol.

Depois outra.

A mancha começou a se espalhar.

O tecido branco absorveu o vermelho.

E, sob o colchão, alguma coisa respondeu com três batidas lentas.

Uma.

Duas.

Três.

Zack soltou um dos pulsos de Lúcia e olhou ao redor.

“O que foi isso?”

Ela permaneceu em silêncio.

A sombra junto à porta inclinou a cabeça.

Então a voz de Nyxara surgiu dentro da mente de Lúcia:

“Agora não esconda o sangue.”

Lúcia abriu a mão ferida sobre o lençol.

O vermelho continuou a cair.

Zack voltou a encará-la.

Pela primeira vez, havia alguma coisa semelhante a medo em seus olhos.

Não medo de Lúcia.

Ainda não.

Medo de não estar sozinho dentro da própria casa.

As luzes se apagaram.

E, no quarto das pinturas, todos os quadros começaram a bater contra as paredes.

 

 

(Continua...)



Os preparativos para o Halloween deste ano já começaram!

A Bruxa Nyxara está chamando você!



 
 
 

1 comentário

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Francis Wolf
20 de jun.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Em "A Caverna Além do Véu", mergulhamos no profundo e complexo universo psíquico da personagem Lúcia.

Presa sob as garras criminosas de seu padrasto e psicopata Zack, a protagonista encontra refúgio na Sombra de seu próprio sintoma: o trauma acumulado por sofridas violências. Foi ali, nesse espectro recôndito, que Lúcia conhece finalmente a bruxa Nyxara - o seu outro Eu. No entanto, Lúcia não pensa em vingar-se. "Não quero vingança. Quero que ele pare", diz Lúcia à bruxa.

A individuação da personagem toma corpo aos poucos. Certo dia, ao sair para pescar, Lúcia lembra de um conselho de Suzana, sua mãe, que pede para "colocar a isca no anzol e esperar" - uma alusão clara ao raciocínio que desperta.…

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