O Coven dos Influenciados
- Luna Bela Morte

- há 11 horas
- 6 min de leitura

O convite não tinha um endereço, mas trazia uma pergunta:
Quantas pessoas obedecem quando você fala?
Nyxara encontrou o lugar seguindo o cheiro das respostas.
O Conclave do Espelho Negro acontecia sob um antigo sanatório nas montanhas, fechado havia quarenta anos após todos os internos sonharem com o mesmo incêndio. Na superfície, o edifício permanecia apodrecido e sem eletricidade. Abaixo dele, lustres acesos por gordura humana iluminavam corredores de mármore, enquanto carros negros despejavam mulheres vestidas para parecer perigosas.
Nyxara observou-as da chuva.
Havia bruxas da prosperidade, sacerdotisas lunares, demonólogas de maquiagem impecável e necromantes que jamais haviam tocado um morto. Cada uma chegava acompanhada por assistentes, fotógrafos e pequenos aparelhos onde milhões de olhos aguardavam o próximo gesto. Falavam em ancestralidade com sotaque publicitário. Usavam pentagramas de ouro, unhas longas e o medo domesticado de quem só invocava entidades previamente aprovadas por patrocinadores.
Nyxara sentiu o coração de Helena bater dentro do peito que agora lhe pertencia.
Ainda não se habituara inteiramente à carne. Gostava do peso dos cabelos negros sobre as costas, do frio mordendo a pele, da sensualidade involuntária daquele corpo abrindo silêncios por onde passava. A beleza era uma espécie de feitiço vulgar, mas eficiente. Os vivos perdoavam qualquer abismo quando ele possuía uma boca bonita.
Na entrada subterrânea, três mulheres guardavam uma escadaria de ônix. A mais famosa chamava-se Morgana Vellum. Dez milhões de seguidores, duas linhas de cosméticos rituais e um curso chamado Desperte a Deusa Inevitável. Ao lado dela, Ravena D’Oráculo e Lilith Sette examinavam nomes numa prancheta de pele sintética.
— Convite — exigiu Morgana.
— Vim falar com aquele que os distribuiu — respondeu Nyxara.
As três trocaram o sorriso secreto das pessoas acostumadas a confundir acesso com grandeza.
— Nome?
— Nyxara.
Ravena digitou. Depois digitou novamente.
— Não há perfil verificado.
— Não há perfil algum — disse Lilith, erguendo os olhos. — Quantos seguidores você tem?
Nyxara contemplou os corredores abaixo delas. Alguma coisa respirava atrás das paredes.
— Séculos.
Morgana riu. As outras a acompanharam com um pequeno atraso, como ecos treinados.
— Querida, isto não é uma feira esotérica. Só entram autoridades em bruxaria e demonologia.
— Autoridade — repetiu Nyxara, saboreando a palavra como quem encontra um dente no vinho. — É o nome que os inseguros dão à permissão coletiva.
Morgana fechou a expressão.
— Você não é ninguém.
Nyxara sorriu. Seus olhos tornaram-se negros até onde os olhos não deveriam continuar.
— Foi exatamente o que o demônio disse antes de me dar uma eternidade para aprender seu erro.
Ela desceu.
As três não tentaram segurá-la. O corpo reconhece a verdade alguns segundos antes da vaidade.
No fim da escadaria havia uma porta sem fechadura, guardada por uma criatura acorrentada ao próprio esqueleto. Tinha nove braços costurados ao tórax, uma cabeça coberta por sinos e a pele gravada com os nomes daqueles que tentara devorar. Diante dela, dezenas de convidados aguardavam autorização, em silêncio. Nenhum ousava aproximar-se.
Chamavam-na de Nono Porteiro.
Nyxara viu o que os outros não haviam percebido: a criatura não protegia a porta.
Era a porta.
Ao sentir sua presença, os sinos da cabeça tocaram para dentro. O monstro abriu o ventre e revelou fileiras de dentes ao redor de um corredor pulsante.
— Um passo — advertiu uma demonóloga famosa — e ele apaga seu nome de todos os livros.
— Então finalmente escreverão algo novo sobre mim.
Nyxara avançou.
O primeiro braço veio rápido o bastante para decapitar uma oração. Ela o deteve com a palma. A carne de Helena se abriu; sangue escorreu entre seus dedos. Nyxara fitou a ferida com uma curiosidade quase terna. Depois pronunciou uma palavra aprendida durante o terceiro século de prisão.
A sombra do Porteiro soltou-se do chão.
Subiu pelas pernas do dono, entrou-lhe pela boca e começou a puxá-lo para dentro de si mesmo. Os nove braços se retorceram. Os sinos urraram. A criatura caiu de joelhos.
Nyxara encostou os lábios onde deveria haver uma orelha.
— Quem guarda uma porta já pertence a quem possui a chave.
O monstro abriu o peito.
Ela atravessou.
Atrás dela, as autoridades da bruxaria recuaram como crianças diante de um animal morto que ainda pisca. Morgana deixou o celular cair. A transmissão continuou, mostrando apenas seus sapatos imóveis.
Do outro lado havia um salão circular. Centenas de velas flutuavam sobre um poço, e, ao redor dele, os influentes ajoelhavam-se diante de espelhos negros. Em cada superfície, números cresciam: seguidores, visualizações, vendas, convites, desejo. A cada promessa concedida, um fio escuro saía da boca do pactuante e mergulhava no poço.
Eles pensavam receber poder.
Estavam sendo ligados a uma coleira comprida o bastante para parecer um horizonte.
No centro, sentado num trono de carvão vivo, aguardava o demônio.
Os mesmos chifres retorcidos. Os mesmos olhos em brasa. O mesmo sorriso que séculos antes lhe oferecera uma chave e chamara a prisão de divindade.
Por um instante, o fogo em seus olhos vacilou.
— Você conseguiu um corpo.
— Sim. E você... conseguiu uma plateia.
— O que você quer, Nyxara? Eu lhe dei um reino.
— Não... você me deu apenas tempo.
O demônio levantou-se. Ao redor, os pactos prosseguiram. Uma mulher prometeu a voz em troca de nunca ser esquecida. Um homem entregou os sonhos dos filhos para que seu nome sobrevivesse ao algoritmo. Nenhum escutava as próprias palavras; estavam ocupados admirando o futuro nos espelhos.
— Veio agradecer? — perguntou ele.
— Vim cobrar a diferença entre o que prometeu e o que entregou.
— Toda criatura recebe exatamente o que deseja. Você quis ser uma deusa.
— E eles querem ser livres? — Nyxara indicou os ajoelhados.
— Querem ser vistos. Liberdade exige uma solidão que poucos suportam.
— Por isso lhes oferece milhões de testemunhas e chama a cela de alcance.
Ele sorriu.
— Não despreze meu método. Você também encontrou uma mulher cansada de si mesma, entrou por uma promessa e vestiu o que ela abandonou. A aluna voltou para condenar o professor?
O coração de Helena bateu mais forte.
Nos espelhos, por um sopro, surgiu o rosto verdadeiro da mulher aprisionada: olhos verdes, mãos contra o vidro, um grito sem som.
Nyxara não desviou.
— Não vim fingir inocência. Inocência é a máscara preferida dos predadores medíocres. E você sabe disso! Vim demonstrar que aprendi.
O demônio solta uma gargalhada.
— Aprendeu o quê, bruxa de merda?!
Ela tocou o espelho mais próximo. Os números pararam de crescer.
— Que toda prisão revela a arquitetura de seu carcereiro.
O salão estremeceu.
Nyxara havia reconhecido o desenho. Cada seguidor era uma testemunha; cada testemunha, um fragmento de consentimento; cada tela, uma pequena porta. O demônio não concedia influência, isso já estava óbvio agora. Ele se espalhava através de promessas de fama e sucesso, transformando seres admirados em altares portáteis. Milhões o alimentavam sem sequer saber o seu nome.
Mas tudo o que se espalha pode ser repartido.
— Diga o que quer — rosnou ele.
— A localização do Templo dos Vampiros.
Pela primeira vez, os espelhos escureceram.
— Esse lugar não recebe vivos.
Nyxara abriu um sorriso lento.
— Então meu corpo será uma agradável irregularidade.
— Não posso revelar.
Ela ergueu a mão ensanguentada. Nos celulares abandonados, nas câmeras escondidas e em cada espelho do salão, apareceu o rosto do demônio.
— Posso pronunciar seu primeiro nome diante de todos eles — disse Nyxara. — Posso inverter os fios. Em vez de alimentar-se de milhões, você será dividido entre milhões. Uma consciência em cada tela. Um fragmento mendigando atenção, deslizado para cima por dedos entediados. Sua prisão será tão vasta quanto sua audiência.
Ela parou por um momento, sorriu, e disse:
— Isso sim seria uma doce vingança!
O demônio contemplou as próprias imagens.
E compreendeu que Nyxara não o ameaçava somente com a morte. A irrelevância pairava no ar como um gás tóxico pronto para matá-lo.
— Sob as ruínas do Mosteiro de Santa Véspera — disse, enfim. — Na Serra dos Corvos. A entrada está sob o altar afundado e só aparece quando a lua não projeta sombra. Leve sangue de alguém que morreu sem permanecer morto. Sem isso, o templo beberá você antes que seus senhores despertem.
Nyxara retirou a mão do espelho. As imagens desapareceram.
— Temos um acordo — murmurou o demônio.
— Não. Temos uma lembrança. Acordos pressupõem confiança.
Ela virou-se para partir.
Ao atravessar novamente o Nono Porteiro, encontrou as bruxas influentes espremidas contra as paredes. Nenhuma filmava. Nenhuma sorria. Morgana Vellum a observava com o rosto despido de superioridade, como se pela primeira vez tivesse compreendido que todos os seus rituais eram brinquedos deixados diante de uma floresta.
— Quem é você? — perguntou.
Nyxara passou por ela, levando consigo o cheiro do poço, a localização do templo e um segredo ainda mais precioso: demônios também podiam ser ensinados a obedecer.
— Agora — respondeu — você pode começar a me procurar.
Quando alcançou a chuva, milhões de telas apagaram-se ao mesmo tempo.
E, durante nove segundos, em cada vidro negro, alguma coisa do outro lado tentou sair.
(Continua no livro "O Grimório de Nyxara"...)

🕯️ Este conto termina aqui. O ritual, não.
O Coven dos Influenciados é apenas uma das portas abertas para o grande evento literário Halloween da Luna.
Autores, leitores e criaturas que ainda escrevem à luz de velas estão convidados a atravessar comigo esta noite; e a participar da antologia “O Grimório de Nyxara”, onde novas histórias serão consagradas à bruxa que jamais deveria ter escapado.
Conheça o projeto, consulte as regras e faça sua inscrição:
Venha escrever uma página do Grimório.
Mas escolha bem as palavras. Nyxara costuma responder quando alguém escreve seu nome.



Comentários