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O Retrato do Véu

1 de set.
6 min de leitura

A casa começou a me observar três meses antes de eu perceber que os olhos não eram dela.

Fui enviada para Pedra Branca no fim de um inverno especialmente úmido, quando a Ordo Umbrae decidiu reabrir uma antiga Casa de Vigília escondida no interior da mata. O edifício constava nos arquivos como abandonado desde 1938, embora alguém continuasse trocando as velas da capela subterrânea.

Ninguém soube explicar isso.

Ou souberam e fizeram o que instituições antigas fazem melhor: arquivaram o medo numa gaveta e deram a ele um número.

Minha função era simples. Catalogar objetos, copiar inscrições e registrar qualquer alteração no Véu.

Aceitei porque sempre tive pouca estima pela normalidade.

A casa ficava além das ruínas de um pequeno monastério, quase devorado pelas raízes. Para alcançá-la era preciso atravessar uma trilha onde árvores enormes fechavam o céu. Mesmo durante o dia, caminhava-se sob uma espécie de crepúsculo vegetal.

Na primeira semana ouvi crianças.

Na segunda, passos no telhado.

Na terceira, meu piano começou a tocar sozinho.

Não havia piano.

Anotei tudo.

 

A Ordo chama isso de manifestação residual. Os mortos, segundo seus tratados, repetem gestos como o corpo repete uma cicatriz. Particularmente, sempre achei essa explicação confortável demais. Mortos não repetem. Mortos aprendem.

Na noite em que Ana Cláudia apareceu, chovia com tanta força que o bosque parecia estar sendo demolido pela água.

Bateram três vezes.

Quando abri, encontrei uma mulher magra, talvez quarenta anos, encharcada, segurando uma caixa comprida contra o peito.

— Posso esperar a tempestade passar?

 

Olhei para a mata atrás dela.

Não havia estrada próxima.

Perguntei como chegara.

Ana sorriu.

— Caminhando.

 

Resposta típica de quem deseja esconder alguma coisa e ainda espera parecer espirituosa.

Deixei-a entrar.

Fiz chá. Acendi a lareira. Enquanto as roupas dela secavam, conversamos.

Era pintora.

Viajava por lugares antigos desenhando edifícios condenados, cemitérios, pessoas que moravam perto de locais onde, segundo ela, "o mundo ficava fino".

Conhecia aquela expressão.

Nos documentos mais antigos da Ordo Umbrae, certas regiões eram chamadas de zonas de adelgaçamento: lugares onde a separação entre este mundo e aquilo que existe além se tornava instável.

Não contei a Ana quem eu era.

Ela também não me contou quem ela era.

Duas mentirosas educadas diante de uma lareira. Quase uma amizade.

Às onze e vinte, ouvimos uma criança rir dentro da parede.

Ana interrompeu a frase.

Depois vieram três batidas no vidro.

A janela dava para o segundo andar.

Ela se levantou.

— Há quanto tempo isso acontece?

— Qual parte? – Eu perguntei.

 

O rosto dela perdeu um pouco da cor.

Gostei dela nesse momento.

Pessoas corajosas são interessantes. Mas do meu ponto de vista, a coragem é apenas uma espécie de ignorância que as pessoas tentam disfarçar com uma boa postura.

Perto da meia-noite, Ana abriu sua caixa.

Dentro havia pincéis, pequenos frascos e uma tela enrolada.

— Quero pintar você.

— Aqui?

— Principalmente aqui.

 

Deveria ter recusado.

Naturalmente, aceitei.

Sentou-me diante da escrivaninha, com a parede oriental às minhas costas. Enquanto trabalhava, os fenômenos aumentaram.

Duas noites se passaram. Talvez três. Mas não vou contar todas elas. Seria crueldade demais com você.

Vou falar apenas da última noite.

Foi nela que a pintura finalmente ficou pronta.

E, como quase tudo que fica pronto perto de mim, não terminou exatamente em paz...

 

Primeiro vieram os sussurros.

Não consegui entender as palavras, mas Ana conseguia.

Percebi porque seu pincel começou a mudar de direção antes de cada frase invisível.

— Eles estão orientando você?

 

Ela permaneceu calada.

— Ana.

— Não são eles.

 

Foi a primeira vez que senti medo naquela casa.

— Então quem?

 

Ela continuou pintando.

— Alguma coisa que está embaixo dela.

 

Meu olhar desceu involuntariamente para o chão.

Sob aquela casa existia uma câmara lacrada.

Eu conhecia sua localização pelos mapas da Ordo.

Não conhecia o conteúdo.

O arquivo correspondente havia sido arrancado do livro.

Ana terminou meu rosto por volta das duas.

Faltavam os olhos.

Ela pousou o pincel.

— Retratos antigos sempre deixavam os olhos por último.

— Superstição?

— Precaução.

 

Pegou um frasco pequeno.

A tinta era quase negra, mas havia nela reflexos azulados, como petróleo sob lua.

Antes que tocasse a tela, alguma coisa caiu no andar superior.

Um estrondo brutal.

Ana virou a cabeça.

Eu também.

Durou talvez dois segundos.

Quando olhamos novamente para o quadro, os olhos estavam pintados.

Perfeitamente.

Meus olhos.

Eram tão exatos que senti uma repulsa íntima, quase física.

Mas havia um erro.

A figura no retrato não olhava para Ana.

Olhava para alguma coisa atrás dela.

Ana percebeu.

Virou-se lentamente.

Não havia ninguém.

Então aproximou o rosto da pintura.

— Que merda...

— O quê?

 

Ela apontou para minhas pupilas.

Havia pequenas formas refletidas nelas.

Quatro figuras usando vestes antigas.

Entre elas, uma porta.

Eu conhecia aquela porta.

Era a entrada da câmara subterrânea.

Ana enrolou os pincéis imediatamente.

— Não durma olhando para isso.

 

Ri.

Ainda hoje tenho vergonha daquele riso.

— Por quê?

 

Ela demorou para responder.

— Porque talvez isso não seja um retrato.

 

Olhou novamente para a pintura.

— Talvez seja uma janela.

 

A tempestade não passou.

Ana dormiu no quarto de hóspedes.

Às quatro e treze da manhã acordei com estalos.

Secos.

Regulares.

Crac.

Silêncio.

Crac.

Como madeira quebrando.

Ou dedos.

Ou vértebras.

Levantei-me, mas uma sonolência brutal e misteriosa me derrubou antes de alcançar a porta.

Quando despertei, o sol já atravessava as cortinas.

Encontrei Ana no corredor.

Ou aquilo que restara da anatomia dela.

Nenhum corte.

Nenhum sangue.

Os ossos haviam se partido dentro da carne.

Braços, pernas, costelas, mandíbula.

Seu corpo parecia ter sido dobrado repetidamente por mãos invisíveis, como alguém tentando descobrir quantas vezes uma mulher pode ser fechada antes de deixar de parecer humana.

Sobre o peito havia uma folha arrancada de meu caderno.

Uma única frase estava escrita:

ELA OLHOU PARA DENTRO.

 

Reconheci minha letra.

Não fui eu.

Essa foi a primeira mentira que contei a mim mesma.

A segunda veio naquela noite.

Eu estava escrevendo o relatório destinado à Ordo Umbrae quando fui preparar café. Ao voltar, havia outra frase no documento.

ELA SONHOU COM OS OLHOS.

 

Fiquei imóvel.

Atrás de mim, alguma coisa arranhou a tela.

Virei.

Meu retrato havia mudado.

A mulher pintada segurava uma caneta.

Eu não.

Ela escrevia sobre uma folha apoiada na mesma escrivaninha onde eu estava sentada.

Levantei-me.

Ela continuou escrevendo.

Isso importa.

Um espelho imita.

Aquilo não imitava.

Quando terminou, ergueu os olhos.

Eu me aproximei da tela.

As palavras eram pequenas, mas legíveis.

ANA NÃO FOI A PRIMEIRA.

 

Meu estômago contraiu.

A figura apontou para o fundo da pintura.

A parede atrás dela estava rachada.

Na minha casa, naquele mesmo ponto, havia apenas reboco.

Peguei um martelo.

Dez minutos depois encontrei tijolos antigos.

Depois argamassa negra.

Depois uma porta de ferro.

O símbolo da Ordo Umbrae estava gravado nela.

Também encontrei sete nomes.

Todos riscados.

O último era o meu.

Não havia data de entrada ao lado dele.

Havia data de morte.

Amanhã.

 

Voltei para o quarto.

O retrato esperava.

A mulher já não escrevia.

Estava de pé.

Sorrindo.

Foi então que finalmente entendi por que Ana morrera.

Não porque viu alguma coisa no quadro.

Porque o quadro a viu.

Minha imagem nunca esteve aprisionada naquela tela.

Aquilo vinha usando meu rosto como usamos uma máscara encontrada num armário.

E agora, enquanto termino estas linhas, escuto a porta subterrânea sendo aberta do outro lado.

Há passos na escada.

Quatro pessoas.

Talvez aquelas refletidas nos meus olhos.

Talvez não sejam pessoas.

Não pretendo verificar.

Existe algo mais urgente.

Olhei novamente para o quadro há poucos minutos.

A mulher desapareceu.

Restaram apenas a cadeira, a escrivaninha e a parede aberta atrás dela.

Pensei que tivesse escapado.

Estava errada.

Encontrei-a na pequena superfície escura da janela.

Depois no vidro do relógio.

Depois na tela apagada do meu celular.

Ela não está saindo do quadro.

Está aprendendo a existir em qualquer coisa capaz de devolver um rosto.

Inclusive olhos.

E foi nesse instante que compreendi por que a Ordo Umbrae havia lacrado aquela casa.

A porta subterrânea nunca serviu para impedir alguma coisa de sair.

Servia para impedir que alguém descobrisse como ela entra.

O mecanismo é simples.

É preciso um retrato.

Depois, alguém precisa olhá-lo.

Ana forneceu o primeiro.

Eu forneci o segundo.

E você acaba de fornecer o terceiro.


Este conto é uma criação original da autora Luna Bela Morte e pertence ao universo paralelo da saga Ordo Umbrae, revelando segredos que se ocultam nas margens da história principal.



 
 
 

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